Mulheres mostram o lado doce do empreendedorismo na Maré

Mulheres mostram o lado doce do empreendedorismo na Maré

Com base em comércio familiar, ramo dos bolos e doces cresce na região

Por Hélio Euclides, Jorge Melo e Daniel Fernandes. Em 24/03/2022 às 07h. Editado por Edu Carvalho

Com a pandemia, um sabor salgado movimentou a vida de quem trabalha com doces. Na Maré não seria diferente, onde explodem pelos becos e vielas lojinhas que adoçam o dia, sendo tocadas por mulheres que tiveram de reinventar suas receitas para não perderem o brilho nos empreendimentos que mostram a força da mulher à frente de estabelecimentos. 

Bianca Palmeira aprendeu com a mãe a receita de doces e agora tem seu próprio empreendimento. Foto: arquivo pessoal

É o caso de Bianca Palmeira, moradora da Bento Ribeiro Dantas, criadora da marca BiCakes. As receitas nasceram da influência de sua mãe na adolescência, que fazia doces para casa e para fora. “Eu ia aprendendo e tentando aperfeiçoar aquilo que ela fazia de forma mais técnica. Me apaixonei por modelar e decorar bolos, e com isso fui assumindo as finalizações dos doces. Passei a buscar cursos e aprendi receitas e mais receitas. Veio a pandemia e com o turbilhão de encomendas, não me enxergava mais longe disso. Sou louca por esse universo dos doces”, diz. 

Ela ainda desenvolve sua arte culinária em casa, pela necessidade do cuidado e participação em uma jornada que se multiplica em mil. Apesar das dificuldades, ela ainda quer realizar um ateliê para chamar de seu, com atendimento presencial  e entrega das encomendas, o que a faz conhecer ainda mais seus clientes. “É necessário conhecer o seu público alvo, buscar conhecimento em vários setores, para conseguir empreender sem quebrar. No atual momento da economia, é preciso, como todo brasileiro, rebolar.  Tem que se reciclar e criar algo novo a todo momento em busca do aumento do faturamento para se manter”, comenta.

Palmeira afirma que trabalhar com o que gosta não necessita apenas do ingrediente amor, é indispensável uma boa pitada de planejamento. “É muito importante se informar sobre finanças, marketing digital e buscar cursos para aprender a calcular seu produto corretamente para não perder dinheiro. Muita gente busca receitas para a profissionalização, mas não existe fórmula mágica”, analisa. 

Suas melhores vendas são no período natalino, onde recebe inúmeras encomendas de bolos simples e decorados, doces para festas, sobremesas, salgados de forno, baguetes recheadas artesanais, panettones artesanais doces e salgados. A rabanada recheada é a campeã de vendas natalinas. Para visitar os quitutes podem ser vistos no Instagram: @bia.palmeira.

Histórico de docerias comandadas por mulheres

Um exemplo de empreendedora que apostou na simplicidade é Alzira Ramos. Aos 60 anos começou a vender bolos, que eram batidos à mão com a ajuda do marido à noite e vendidos no botequim ao lado da casa. Nascia no ano de 2008 a primeira loja da Fábrica de Bolo Vó Alzira. Hoje são mais de 20 sabores e cerca de 300 franquias pelo país. 

Outra história de sucesso acontece em 1978, quando o movimento em Bonsucesso não era tão intenso. Uma mulher abre uma loja inteiramente familiar. Solange Vaz não esperava que a marca Tia Solange fosse tão bem aceita. Muitos mareenses que circulam por lá batem ponto para saborear seus doces, salgados e tortas. Tia Solange tem clientes não só na área da Leopoldina, mas entrega em bairros mais distantes.

Doce sem exageros 

O Brasil é o quinto país em incidência de diabetes no mundo. A Federação Internacional de Diabetes chama atenção para o crescimento da doença. O aumento é de 16% de incidência da doença na população mundial nos últimos dois anos, entre 2019 e 2021. A estimativa é que 7% dos adultos brasileiros entre 20 a 79 anos vivam com diabetes, ou seja, 16,8 milhões da população. Em 2020, foram mais de 214 mil pessoas que morreram por conta da doença. Quando se fala do Rio de Janeiro, a capital é a com maior prevalência de diagnóstico médico da doença no país, com 10.4 casos a cada 100 mil habitantes.

Uma das maneiras de evitar surpresas desagradáveis é o check-up anual que pode promover o diagnóstico precoce do diabetes, para que se possa iniciar o tratamento nas fases iniciais da doença. As três empreendedoras dão conselhos para os clientes. Tenho clientes diabéticos, mas como não trabalho com linha direcionada a esse público com restrição. Contudo, sempre oriento recheios menos doces e que procure pessoas que trabalham só com essas linhas”, detalha Bianca Palmeira.

Outro cuidado necessário é com a saúde bucal. Não é o açúcar em si, mas ele está de fato relacionado à cárie. As bactérias da boca metabolizam e transformam rapidamente esse nutriente em ácido, aumentando o risco de surgimento de cáries. Adote uma dieta balanceada, com pouco açúcar e amido. Ao consumir doces é importante escovar os dentes e utilizar fio dental. Evitar doces e alimentos ácidos em excesso. Para evitar cáries não deixe de agendar limpezas e avaliações odontológicas regulares. 

Presença de mulheres chefiando empreendimentos cresce 

Joyce Silva tem uma cafeteria na Maré. Foto: arquivo pessoal

O Brasil é o sétimo país com o maior número de mulheres empreendedoras no mundo. No país as mulheres empreendedoras chegam a 30 milhões, segundo dados do Global Entrepreneurship Monitor 2020 (GEM), em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Dados da Rede Mulher Empreendedora mostram que de todas as donas de pequenos e médios negócios do país, cerca de 26% abriram suas empresas já durante a pandemia. Apesar do grande número, segundo o Fórum Econômico Mundial (FMI), serão necessários 136 anos para que a igualdade entre homens e mulheres seja alcançada globalmente. 

A Cafeteria Doces e Delícias fica na Baixa do Sapateiro, sendo administrada por Joyce Fernanda da Silva. Ela defende que ser uma mulher empreendedora requer muita resiliência pois existem muitos desafios a serem vencidos como ser funcionária, entregadora, quem compra material, quem faz marketing da empresa, é sua própria chefe, esposa e mãe. “Quando comecei fazia os bolos, doces, salgados e ainda saia para vender no Centro da cidade na empresa onde trabalhava, pela rua, na igreja, para os vizinhos. Quando chegava tinha que preparar tudo para o próximo dia e ainda dá conta das tarefas de casa”, lembra. 

Hoje ela passa um pouco da experiência para outras mulheres. “Lutar pelo meu sonho pode gerar empregos para outras pessoas e liberdade financeira. Com as tortas nas marmitinhas e bolos simples, passei a gostar da área de gastronomia e passei a fazer cursos, me aperfeiçoar e eu decidi ser empreendedora. Na época não tinha condições de fazer cursos caros, mas precisava me aperfeiçoar, então me inscrevi num curso gratuito de gastronomia no Centro Universitário Augusto Motta (Unisuam) e fui sorteada, de lá para cá fui fazendo vários cursinhos”, comenta. Na sua loja, que fica Rua Flávia Farnese, 636, vende diversos doces como bolos de pote, pavês, brownie, torta salgada, empadão e bolos para festas, com inovação nos docinhos.

“Temos um retorno muito bom, relacionado aos nossos produtos. Além das pessoas retornarem para comprar, ainda indicam para outras pessoas. Hoje eu e meu esposo vivemos da Cafeteria, o que era só um complemento se tornou nossa principal fonte de renda”, diz Joyce. Para quem deseja começar no ramo dos doces, ensina que não é fácil, mas também não é impossível. O ingrediente principal é a resistência para superar os desafios, além de dedicação e aperfeiçoamento sempre. Na sua loja além dela e seu esposo são mais sete pessoas que acreditam na Cafeteria Doces e Delícias. Para saber mais é só visitar as páginas no Instagram e Facebook: @cafeteriadocesedelicias

Para resistir a doença e a economia

Com a crise sanitária do coronavírus, veio a ansiedade por demandas, necessidades, mais estresse e cansaço. Em contrapartida a necessidade de consumo de alimentos que tragam sensação de conforto. Com isso, o consumo de doces como chocolates, biscoitos e bolos no país aumentou, conforme demonstra pesquisa realizada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que traz o número de 41,3% antes da pandemia e 47,1% depois. E entre adultos na faixa etária de 18 a 29 anos, 63% consomem doces duas vezes por semana ou mais.

O ramo das docerias na pandemia teve um crescimento enorme. Para fazer parte desse mercado, no site do Senac é possível realizar inscrições em cursos como de Confeiteiro, Cake Designer, Bases de Confeitaria e Doces Finos. Para mais informações, clique aqui.

Quem sente orgulho da confeitaria localizada na Praia de Ramos, que leva o seu primeiro nome, é Virginia Rodrigues de Oliveira. Ela começou as atividades em outubro de 2021 ainda na sua casa. “Depois vendemos bolos em duas mesas, passamos a trabalhar com um carrinho e só posteriormente veio à loja. Era um sonho de muitos anos, sempre quis ter um lugar para vender meus bolos e sobremesas. Na pandemia o pai das minhas filhas faleceu e como ele deixou a casa para elas, tivemos a ideia de fazer a loja no local. Minha mãe emprestou uma parte do dinheiro e outra veio da Agerio (Agência Estadual de Fomento do Rio de Janeiro), para fazer obras e adquirir algumas coisas”, explica. 

Recém começado com uma confeitaria, Virgina sonha em ampliar horizontes através dos doces. Foto: arquivo pessoal.

Como outras mulheres que possuem o próprio negócio, Virgínia afirma que é um empreendimento familiar, no caso dela tem o apoio das filhas, sobrinha e mãe. Ela e suas parceiras produzem vários bolos caseiros e de aniversário, brownie tradicional e recheado, sobremesas, pavê, mousses, brigadeirão, tortinhas no pote, banoffee, empadinhas de leite condensado e pudim. Tendo como carro chefe os docinhos e trufas. “O importante é em primeiro lugar fazer com amor, nunca desistir e investir no conhecimento, pois sempre tem novidades”, conta. Para quem desejar conhecer a Confeitaria da Virgínia fica na Travessa Santo Antônio, 12, na Praia de Ramos. Virtualmente a divulgação fica no Instagram: @confeitariadavirginia.

Para uma boa formação, o projeto Maré de Sabores oferece oficinas de formação em Gastronomia e assessoria em empreendedorismo para moradoras da Maré. Informações pelo Facebook e Instagram: @maredesabores.

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Hélio Euclides

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1 Comment

  • Boa noite amiga parabéns você e guerreira e merece muito sucesso que Deus cada vez mais te abençoe 👏👏👏👏👏❣️❣️

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