‘O funk é reflexo da sociedade’

Fernanda Souza é conhecida nas redes sociais como “Corre Rua” e escreve matérias para a Kondzilla, uma das maiores produtoras de funk do Brasil | Foto: Arquivo pessoal

‘O funk é reflexo da sociedade’

Fernanda Souza é professora, escreve para o Kondzilla e reflete em entrevista à Revista Ocupação sobre a importância da presença feminina no universo de um dos gêneros mais populares do Brasil

Por Luca LK, em 16/11/2021 às 15h50

Fernanda Souza, conhecida nas redes como Corre Rua, é múltipla: artista, jornalista, diretora criativa e de arte, fotógrafa, documentarista, produtora e stylist. Formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, atuou como professora e sempre documentou o baile funk de São Paulo. É diretora de conteúdo do Portal KondZilla, repórter no Periferia em Movimento e em seu trabalho mais recente, foi assistente de figurino para a série Sintonia, da Netflix. Ela trocou uma ideia com a OCUP.AÇÃO e falou sobre seu envolvimento com o movimento funk, machismo, jazz e Djavan. “Eu não represento o funk. Eu sou o funk.” Segura as umbrellas e dá uma lida nos principais trechos da conversa.

Quem é Fernanda?

Sou a Fernanda, da quebrada do Grajaú, educadora e formada em Letras. Jornalista, falo sobre periferia, mas sobretudo funk. De tudo um pouco. Mas tudo interligado dentro da periferia. Eu sou apaixonada por vinil, gosto de Djavan, gosto muito de Jorge Ben. Adoro ler, uma coisa muito minha. Gosto muito de jazz. Gosto de jazz porque é rebelde, nasceu da rebeldia. Jazz é foda, blues é foda. Quem sabe a história de John Coltrane, Nina Simone, é inegável. Ali são outras ideias. Tudo isso muito presente de família, né? Venho de uma família que é da cultura Hip Hop, da cultura do jazz.

As pessoas pouco sabem, mas amo rap. Eu gosto de música! Mas se você me perguntar o que eu mais gosto é rap e funk. Muitas vezes quando eu ouço funk, não é só por causa da letra. Eu ouço pelo instrumental. Gosto muito do Dj Mandrake porque ele usa muita música clássica para fazer funk. Eu gosto do funk, eu vou pro do baile. Eu não gosto que me limitem a só ser funkeira. Eu gosto de tudo que me cabe. Onde eu mais gosto de curtir é o baile, onde eu me sinto livre. Sou uma pessoa que pensa em política no meio do baile. Já chorei no meio do baile por causa de consciência racial.

Quando apareceu a vontade de ser professora?

É meio utópico, idealista a brisa de ser professor. Eu idealizei muito na época do cursinho. Era a forma que eu encontrei de captar mais pessoas. Eu acho que dentro da sala de aula dá pra girar informação. Você tem aquela a brisa de educar, educar para passar 5 anos e encontrar o cara trabalhando no mercado alimentando o capital. É foda. (Por isso) é um ideal.

E da onde veio a atração pelo funk?

Eu sempre fui uma pessoa muito privilegiada em ir pro centro. Eu tinha um namorado que me levava pro centro da cidade, então ele me apresentou um novo mundo. Aí eu acabei tendo contato com outras culturas. O primeiro gênero musical da minha vida foi o rap, mas o funk tava do lado. Então eu frequentava o funk, ia pro baile. Mas durante um tempo eu me afastei. Foi exatamente quando eu comecei a namorar esse cara e ele tentava me afastar como se fosse me “salvar”. Quando eu falo me afastar, é dos bailes. Eu ia pra Nitronight, Quinta Cabulosa, que são bailes da minha quebrada. Na minha época tinha o Euca. Então eu posso dizer que o funk tá na minha vida, de forma afirmativa, desde os meus 14, 15 anos. Sempre gostei muito de dançar.

Então qual é minha brisa de ir pro baile? Era ir pra dançar. O ritmo que me conectava com a dança era o funk. E quando eu era adolescente, tava me envolvendo com o empoderamento com a galera militante do Grajaú, eu ouvi a Mc Pocahontas, Mc Marcelly, meio que eu pagava pau para as minas. Eu falava: “Mano, acho que isso é empoderamento”. Toda vez que eu falo sobre isso e que eu mostro pros caras que eu também sei sobre sexualidade, de certa forma eu tô me afirmando no meio deles. Às vezes quando eu ouvia o funk putaria, por gostar de rap, dos dvdzinhos da feira, eu falava: “Nossa mano, isso parece 50 Cent!”

Então eu aproximava. Eu sabia que tinha umas fitas erradas, mas é muito louco porque na periferia toda vez que você for definir o que é certo e errado você vai topar com moralismo, você vai topar numa questão de ética. E aí você vai topar com indivíduo e coletivo. Acho muito louco falar sobre isso. Ainda mais que o funk putaria vai discutir isso. Não tem como falar de putaria e não falar sobre ética, moral, machismo, estupro. A gente acha que funkeiro não tá dentro da sociedade. A gente faz parte de um todo. A quebrada vai reproduzir as ideias mil grau da nossa forma.

De que forma você fortalece as pessoas que frequentam o baile funk?

Quando a gente se propõe a mudar algo, a defender, a dar voz, a lutar, seja qual for o nome, muitas das vezes a gente acha que vai levar o mundo todo nas costas. E é uma coisa que eu já entendi que não. Então assim, eu gosto da parada. Eu sempre falo, eu não represento o funk. Eu sou o funk! Eu não quero ser a mina que vai defender as minas no funk ou a cara do funk. Não. Eu sempre bato na tecla: eu faço parte disso. Eu sou o bagulho. Eu sou uma das muitas vozes. Então, quando eu me manifesto, quando eu faço um texto pra KondZilla sobre as minas dançando Magrão, qual é a minha visão?

Bom, a Kondzilla é um bagulho que chega numa elite e também na periferia. Então, a partir do momento que muita gente lê o meu texto, ela desconstrói uma visão das minas, como a gente é. Tanto quem é elite, que acha que no funk só tem putaria, que no funk as minas só rebolam, tanto pra quem é funkeiro e tem preconceito com as minas que dançam Magrão e acha que mina só tem que rebolar. Então toda vez que eu vou escrever eu penso nisso. Eu tenho que pegar uma linguagem que eu consiga dar várias cajadadas. E como é essa minha cajadada? Mano, eu sou muito didática. Eu gosto de educar, de trocar ideia. A informação violenta não rolou. Pra mim não rolou. No ambiente que eu trabalho, no baile funk, a gente já nasce na violência. Ali já é muito hostil. Eu já penso que eu não tenho que ser hostil. Mas por quê? Porque eu sou educadora. Não sou só funkeira. Eu tento dialogar.

Como você vê as minas no funk e como os homens enxergam vocês?

O funk tem muito que aprender. O funk é reflexo da sociedade. Nós estamos na margem, mas estamos na sociedade. O funkeiro faz parte da sociedade. Então se a sociedade é machista, isso vai refletir. Presta atenção. Aconteceu esse caso aí, nojento (caso da influencer Mariana Ferrer). Olha onde apareceu. Nos caras da patente alta, que tem dinheiro, burguês. Isso vai refletir na periferia. Não tem como. Eu falo que as imagens ficam no subconsciente das pessoas. Então isso vai ficar no subconsciente de forma positiva e negativa. Toda essa situação vai repercutir de N formas. Vai ter gente que vai achar suave e vai ter gente que não vai achar suave. E isso vai refletir na periferia. E quando a gente fala que o funk é machista, o funk vai ser machista. Não é só o funk que é machista. Olha os caras que tem dinheiro, olha o que ele fez com a mina. Se a gente parar pra pensar, o cara não é estudado? Não é da elite? Porque quem tem acesso ao pensamento crítico, em tese, não deveria reproduzir esse tipo de coisa.

Por isso que eu falo que o funk tem muito pra aprender, como a sociedade também tem. Eu sinto falta de minas no funk consciente. Pô, eu queria ouvir minas no funk consciente e eu sei que o funk consciente não dá espaço. Não sou hipócrita. Todas as minas que eu sigo postam “Nóis tem um charme que é daora”. Sabe por quê? Porque é escasso. Não tinha e aí veio essa música da MC Drika e supri. Supri e fica escasso. Todo mundo sabe que só tem essa. Pra você ver como é importante ter mina de quebrada. Não essas minas que as grandes produtoras ficam vendendo, branquinhas, de cabelo na bunda. Isso não representa em massa as minas. As gravadoras são eugenistas. Quando eu falo de representatividade eu falo de mina da quebrada. Funk que fala de moto, sobre roupa, sobre kit. Eu gosto de Lacoste, de Nike. E você sente falta. Porque aí todas as músicas que eu gosto, que falam de Lacoste, que falam de Nike, que falam de moto, que falam de progresso, estão na voz de quem? Tá na voz masculina. Eu deixo de cantar? Não deixo porque eu gosto dos caras. Tem a questão que o funk salva vidas, é uma indústria. Ele coloca uma pá de menino negro pra poder viver uma parada que eles não viveriam. Mas eu sinto falta de me ver. É uma estrutura. Quando eu falo que reflete na sociedade, é o seguinte, a gente vive no capitalismo. O capital é machista. Uma coisa leva a outra, vai refletir em tudo. Mas eu me sinto privilegiada por refletir isso. E sobre as minas, na periferia tem aquela coisa da justiça pelas próprias mãos já que o estado não faz nada, certo? Você sabe que estuprador na quebrada não tem vez. O rap ensinou isso, Racionais Mc’s. Então essa coisa de pegar na menina não rola. Você tem que ser muito lock pra fazer isso. As pessoas que discutem machismo, feminismo, acham que a gente é boba. Elas tiram a nossa voz. A gente não é boba. Porque desde que me conheço por gente eu vou pro baile com a roupa que eu quero.

Então, nós estamos construindo as nossas próprias referências. E dentro do funk. Eu fico feliz se daqui uns dias as pessoas lembrarem de mim com uma pessoa que escrevia sobre funk. Eu tô trabalhando muito pra construir isso. Outros manos que vão me olhar e vão falar: “Quero escrever como essa mina. quero tá ali”. Porque precisa. Eu acho importante.

Luca LK é editor da revista OCUPAÇÃO, veículo parceiro do Maré de Notícias

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