“O Inferno são os outros” (Sartre*)

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Por Marcello Escorel em 08/05/21 às 6h.

Estamos vivendo desde já a algum tempo um momento de forte polarização no Brasil, mas o que pouca gente sabe é que este fenômeno, além de político, tem muito a ver com uma das tendências da própria alma: a de projetar.

Enquanto crescemos vamos moldando nossa personalidade, assumindo como nossas algumas características que julgamos positivas e literalmente chutando para escanteio, para fora das linhas do jogo da consciência, aquelas outras características que julgamos negativas. Muito deste processo é também dirigido pela sociedade em que vivemos, que normatiza tal comportamento como adequado ou inadequado.

A realidade é que o resultado deste proceder se mostra bem frágil. Nossas partes negativas, apesar de nossa negação estão bem vivas no limiar da consciência, esperando pelo apito de alguma ocorrência para botar de novo a bola em jogo.

E quanto maior a negação de nosso lado sombrio maior o perigo envolvido porque aí aparece com toda a sua força o mecanismo da projeção que, a grosso modo, consiste em associar a outrem o que, no passado, resolvemos esconder tão zelosamente da comunidade e de nós mesmos.

Em nosso país é grande o número de pessoas venais que vivem apontando a corrupção de outros. É como se houvesse uma distorção de uma fala de Jesus que diz que uma mão não deve saber o que a outra faz.

Quanto mais o indivíduo faz vista grossa e se recusa a reconhecer seus “pecados” mais eles recaem sobre outras pessoas através do fenômeno da projeção.

O grau máximo desse mecanismo é a demonização de uma pessoa ou coletividade. Foi o que aconteceu (e ainda acontece) com os negros, mulheres, ciganos, judeus, homossexuais, LGBTs e tantos outros grupos.

Aqui, recentemente aconteceu e acontece com um partido político e um ex-presidente; o que gerou esse estado de coisas funesto que ora vivemos.

Por isso é tão importante nos confrontarmos com nossa Sombra, à maneira de Jesus no deserto debatendo com Satan, que afinal de contas é sua Sombra.

É importante realizarmos o quanto de maldade existe em nós. Não para vivenciarmos nossa realidade maléfica, mas para estarmos atentos a não projetá-la no outro de forma irracional.

Tomo para vocês meu exemplo.

Sempre reagi de forma inflamada e desmedida quando me deparava com “autoridades” em situações de opressão. Até que descobri em mim uma tendência autoritária que em algum momento inconscientemente chutei pra corner. De lá pra cá posso reagir aos autoritários de forma racional e equilibrada, sem ficar possuído pela raiva.

Para finalizar é sempre bom beber da fonte de um mestre. Jesus nos adverte:

“Porque afligir-se com um argueiro no olho dum irmão, quando você tem uma prancha em seu próprio olho. Hipócrita! Livre-se da prancha primeiro. Assim você poderá enxergar para ajudar seu irmão.”

* Jean-Paul Sartre SARTRE, Entre Quatro Paredes, 1945.

Marcello Escorel é ator e diretor de teatro há mais de 40 anos. Paralelamente a sua carreira artística estuda de maneira autodidata, desde a adolescência, mitologia, história das religiões e a psicologia analítica de Carl Gustav Jung.

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