Artigo: ‘Marchemos!’

Arte: Matheus Affonso

Artigo: ‘Marchemos!’

“Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.”

Por Marcello Escorel em 24/04/2021 às 07h

Hoje a luz vem de um tradutor, ensaísta e poeta, que durante quatro décadas se dedicou para nos dar uma nova visão do Antigo Testamento e dos Evangelhos: André Chouraqui. Um argelino de família sefaradi (judeus orientais), que fez parte da Resistência na França durante a Segunda Guerra Mundial e depois migrou para Israel, onde, desde 1957, trabalhou incessantemente a favor da reaproximação das comunidades espirituais.

Vamos ver o que ele tem a nos dizer sobre uma das passagens mais belas dos Evangelhos: o Sermão da Montanha, capítulo 5 do Evangelho de Mateus.

 “A primeira palavra do Sermão da Montanha constitui-se no principal obstáculo à compreensão das palavras de Jesus. Felizes, bem aventurados, repetem todos os tradutores de todas as línguas e dialetos de todos os séculos, exemplo típico de uma interpretação em uma única palavra supostamente conhecida num sentido diferente daquele que tinha originalmente. Porque Jesus não diz a palavra ‘makarioi'(grego), bem aventurados ou felizes, ele pronuncia a palavra ‘ashréi’. Mateus, imperturbavelmente fiel às traduções do judaísmo helenístico, traduz ‘ashréi’ por ‘makarioi’. ‘Ashréi’ repete-se 43 vezes na língua hebraica. Essa exclamação tem como radical ‘ashar’, que não evoca uma vaga felicidade, mas implica uma retidão (yashar) do homem marchando na estrada que leva ao Reino de Deus. Todos os dicionários do hebraico bíblico dão como primeiro sentido ao radical  ‘ashar’ o de marchar, ser feliz é um efeito secundário e tardio. O sentido fundamental de ‘ashar’ é andar. Jesus não tem a crueldade de declarar felizes a multidão de deserdados, de opositores condenados pelas legiões romanas, por qualquer coisa que digam ao suplício da cruz, ou, na melhor das hipóteses, à escravidão nas galés ou nos bordéis do Império. Não se chamam de felizes os homens enviados às torturas, aos massacres ou aos genocídios deste mundo. Jesus convida esses homens a se porem em marcha na direção do Reino de Deus, do qual ele lhes traz a esperança e lhes abre a porta, introduzindo em seus corações a exigência e a dinâmica da salvação universal. Sim, porque falar de bem aventurança ou felicidade na hora da partida equivale a se condenar à inação, a nunca se por a caminho do objetivo desejado – o Reino de Deus – o único lugar de toda felicidade e de todas as bem aventuranças do homem vivo e de pé, marchando na retidão do coração dedicado a Deus, à espera do Reino de Deus.”

Fica assim então a tradução de Chouraqui:

“Em marcha, humilhados do Espírito Santo!

Sim, deles é o reino dos céus!

Em marcha os enlutados!

Sim, eles serão reconfortados!

Em marcha os humildes!

Sim, eles herdarão a Terra!

Em marcha os famintos, e os sedentos por justiça!

Sim, eles serão saciados!

Em marcha os corações puros!

Sim, eles verão a Deus!

Em marcha os pacificadores!

Sim, eles serão chamados filhos de Deus!

Em marcha, os perseguidos por causa da justiça!

Sim, deles é o reino dos céus!

Em marcha, quando vos insultam e vos perseguem, e mentindo vos acusam de todo crime, por minha causa.

Regozijai-vos, exultai! Vossa recompensa é grande nos céus!

Assim também perseguiram os inspirados, os que vieram antes de vós.”

André Chouraqui, advogado e escritor

Para Jesus é desaconselhável que os pobres oprimidos e marginalizados, fiquem inativos sendo continuamente reprimidos numa espera beatífica de recompensas que só virão quando Deus aprouver ou exclusivamente no pós morte. Ele é, por assim dizer, o fundador de uma dinastia em que se incluem personalidades como Martin Luther King, Nelson Mandela e Ghandi, entre outros. O Evangelho não prega tão somente a não violência, mas também a desobediência civil contra todas as leis e comportamentos injustos perpetrados pela elite política, econômica e religiosa de sua época. Seu protagonista talvez fosse apenas preso ou assassinado e não crucificado se não vivesse em tempos mais bárbaros.

Lembro-me de uma música do saudoso Festival da Canção da extinta TV Tupi que poderia ser considerada uma descendente da milenar canção que Jesus entoou na montanha: “Para não dizer que não falei de flores”, de Geraldo Vandré, que consagrada pelo público, se tornou um verdadeiro hino da resistência contra os opressores da ditadura militar.

Jesus, como Vandré, nos incita à marcha “caminhando e cantando e seguindo a lição” do Evangelho, “aprendendo e ensinando” sua “nova lição”: o avento do Reino para aqueles que tem a certeza de que “esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

Portanto, marchemos! Marchemos!

Foto: Rodrigo Castro
Marcello Escorel é ator e diretor de teatro há mais de 40 anos. Paralelamente a sua carreira artística estuda de maneira autodidata, desde a adolescência, mitologia, história das religiões e a psicologia analítica de Carl Gustav Jung

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Marcello Escorel

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