O papel do Festival 3i na ‘descolonização’ do jornalismo brasileiro

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Evento trouxe discussões fundamentais à profissão, como a precarização, o financiamento, a proteção de jornalistas e novos modos de produção jornalística.

Por Artur Alvarez publicado na Ajor. Editado por Anelize Moreira, em 04/04/22 às 12h

“As notícias temos que dar antes de acontecer, o que falamos depois é fofoca”, crava Ailton Krenak, filósofo e ativista do movimento socioambiental e dos direitos humanos. A fala do líder indígena foi um dos destaques do festival e pauta na mesa de encerramento “Ombudsman: onde chegamos com o festival e para onde vamos?”, que ocorreu na sexta-feira (25). A mesa lançou um olhar crítico acerca do que foi o Festival 3i deste ano e trouxe um balanço dos 10 dias de evento, fruto de uma construção coletiva, colaborativa e que apontou caminhos para o futuro do jornalismo digital.

O Festival 3i – Jornalismo Inovador, Inspirador e Independente 2022 realizado pela Ajor aconteceu de 15 a 25 de março, em formato virtual e foi marcado pela diversidade de temas e de palestrantes nacionais e internacionais protagonizando as mesas, os painéis e os diálogos, assim como a troca de conhecimento nos 34 encontros  que poderão florescer em parcerias futuras. A questão ambiental, o fazer jornalismo de maneira independente, as pautas da periferia, público-alvo de muitas dessas iniciativas independentes, a autonomia e o financiamento foram temas recorrentes desta edição.

A ecologia do desastre e a inquietação fomentada por Ailton Krenak

A cutucada que Krenak deu na mídia no diálogo “‘Ecologia do desastre’, uma entrevista com Ailton Krenak”, no dia 22 de março, gerou reflexão e impacto dignos de um ombudsman, segundo os palestrantes. Ele comparou essa imprensa com a sirene das barragens de mineradoras, que na prática não servem ao propósito de avisar antes do acontecimento e, por isso, há a necessidade de uma revisão de práticas, de estar mais próximo da comunidade, sugeriu: “estamos tendo apenas a cobertura depois do desastre. A nossa imprensa está correndo atrás da hegemônica, tem que tocar a sirene antes. Isso poderia ser possível se estivéssemos um pouco mais colados na realidade cotidiana da comunidade para conseguir refletir o que elas estão gritando”.

Joana Suarez, gerente de jornalismo da revista AzMina e uma das jornalistas consultoras do evento, vai além nessa visão ao dizer que a exposição de Krenak acerca do jornalismo ambiental e a questão indígena fizeram refletir sobre os seus 11 anos de jornalista investigativa. “Somos todos fofoqueiros. O Brasil é esse país da remediação, de falar depois da tragédia acontecer. Quem dera falarmos aqui nas [Minas] Gerais das barragens que estão em risco e dos licenciamentos irregulares que não poderiam estar saindo e não só ‘fazer a fofoca depois’ do que aconteceu e que morreu gente. E se rompeu foi porque deixou de se dizer algo antes”, reflete.

Ao mesmo tempo em que Camila Silva das Chicas Poderosa concorda com a visão de Krenak, ela traz a fala do filósofo para o universo do jornalismo independente e chama a atenção para o fato de que os frequentadores do Festival 3i fazem parte de uma bolha. “Krenak fala que para antecipar a notícia é preciso estar próximo à comunidade, que, no caso, são as periferias e os interiores do Brasil. Só que os jornalistas que estão no festival são de redações independentes, que já estão próximas à comunidade e atuando nela”, pontua. 

“Temos que começar a conversar com outras bolhas, com outros tipos de jornalistas, da mídia tradicional, por exemplo. Gostaria que eles ouvissem o que estamos discutindo aqui, que ouvissem o Krenak, porque estão fazendo a mídia chegar numa massa maior e vão moldar a opinião pública para as próximas eleições”, completa.

É preciso ‘descolonizar’ o jornalismo, diz Joana Soares

Joana Suarez ressaltou sobre uma urgente ‘descolonização do jornalismo’ para a profissão conseguir cobrir o tema ambiental e muitas outras pautas significativas com o viés mais engajado e profundo que requerem. “Temos de fato que ‘descolonizar’ o jornalismo, a pauta, a cabeça, e parar de fazer fofoca. Isso é um desafio enorme que está posto”, reflete.

“É preciso estudar as questões ambiental e indígena não só para quando estiver fazendo pauta sobre, aprender a olhar para isso antes de conceber a pauta. Até porque olhar para a questão indígena é olhar para a nossa vivência. É preciso sair do eixo ‘sudestino’ e olhar para a Amazônia como o centro do mundo e não só como uma pauta quando tem tragédia”, completa Suarez. Segundo ela, essa discussão se conecta muito com o que foi falado no papo “A pauta como lugar de posicionamento, reflexão e re-humanização”, de dar um caráter mais ativista para a pauta e para o pensamento jornalístico.

Um caminho para a descolonização do jornalismo foi proposto pela jornalista Carolina Monteiro, que pediu à organização do 3i que traga para debater pessoas além do círculo jornalístico no ano que vem. 

“Precisamos de outras vozes sobre o jornalismo […] O jornalismo do séc XXI é interdisciplinar e temos que investir mais nisso. Trazer mais sociólogos, antropólogos, artistas, designers, pessoal de tecnologia e gestão. Ter mais pessoas de outras áreas para trazer contrapontos como o que o Krenak e que o pessoal do Tornavoz trouxe”, sugere Monteiro que é professora na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), jornalista da Marco Zero Conteúdo e idealizadora do projeto #Foca no 3i, que colocou estudantes universitários no protagonismo da cobertura do festival.

O Festival 3i também contou com feedback dos estudantes do #Foca no 3i que realizaram a cobertura jornalística do evento. “Foi enriquecedor falar sobre a passagem que acontece dentro da mídia de massa para a massa de mídia e mostra como o jornalismo está se reinventando e como deve ser a bagagem do jornalista para que se torne um profissional mais completo, plural e ético”, diz o estudante Cadu, da Unicap. “Fazer a cobertura foi muito legal, o evento foi muito organizado e a equipe do festival estava sempre pronta para dar suporte”, relata Fabiana, estudante da PUCRS.

Inglid Martins, estudante de jornalismo da Estácio de Sá, também deu sua opinião sobre o festival após participar de todas as palestras e representou os espectadores. “O Festival foi um achado, não tinha ideia do leque imenso de opções do fazer jornalístico. Os palestrantes abriram sua bagagem e deram tudo de si. O Festival contribuiu para a minha formação”, relata.

Sobre um jornalismo precarizado e que não pode ser romantizado

A romantização do jornalismo feita por John Lee Anderson, repórter da revista estadunidense New Yorker, na primeira mesa do festival, foi um choque para os ombudsmans. “O jornalismo não é forma de ganhar a vida. Tem gente que ganha a vida com isso, mas será que é isso que a gente quer para ser jornalista? A gente quer um seguro de vida, quer comprar uma casa com jardim? Se esse é o sonho então talvez você deva trabalhar numa seguradora ou ser um advogado”, diz Anderson. 

“Não tem como romantizar mais a nossa profissão, o ‘trabalhar por amor sem pensar no dinheiro’. Como vamos acreditar nisso sendo que estamos caindo numa precarização muito grande?”, questiona Camila Silva. Rodrigo Alves, produtor do podcast Vida de Jornalista, também estava presente na mesa e acrescenta que “essa fala sobre romantizar a precarização do trabalho me assustou. O que temos que fazer é brigar para que não seja [mais precarizado], e não aceitar isso de uma forma romântica”.

Os palestrantes contam que a fala do jornalista foi sendo desconstruída ao longo do festival. “Essa visão [do John Lee Anderson] começou a ser contraposta em diversos painéis, que passaram pelo assunto de financiamento, que é hoje uma questão fundamental para o jornalismo. O jornalismo custa tempo e dinheiro e é preciso buscar formas de ser remunerado de forma justa”, explica Alves.

No Festival 3i, a sustentabilidade financeira de veículos independentes exaltada por Rodrigo Alves foi abordada nos encontros  “Reportagem Freelancer”“Criando, estruturando e reinventando organizações”,, “Como montar um projeto”, além das mesas “A periferia no centro, no centro da periferia” e “Financiamento e sustentabilidade dos veículos digitais: por que ainda é tão difícil viabilizar?”.

O 3i da diversidade

O  Festival 3i deste ano foi realizado pela Ajor (Associação de Jornalismo Digital) e contou com a contribuição direta e fundamental de suas 80 associadas para erguê-lo. Foram 10 dias, com mais de 40 horas de apresentações em 34 encontros diferentes. Além do conteúdo das palestras – divididas em cinco trilhas diferentes, empreendedorismo, democracia, distribuição, diversidade e meio ambiente -, o 3i também produziu um podcast e quatro vídeos informativos. 

A diversidade dos convidados e dos temas foi priorizada pela organização: “o maior esforço durante a montagem da programação era incluir o máximo de diversidade possível e contemplar os temas mais caros do jornalismo hoje em dia, com relatos de pessoas que estão fazendo a diferença”, afirma Joana Suarez, consultora do evento. O Maré de Notícias participou da mesa sobre “os desafios e as tecnologias usadas na cobertura jornalística nas periferias do Brasil e sua importância para a diversidade e pluralidade das mídias no mundo contemporâneo. Você pode assistir a mesa aqui.

A  diversidade se mostra em números. Das 123 pessoas de todas as regiões do país, que participaram dos debates, 60% eram mulheres, 48% não brancos (pretos, pardos e indígenas). Esses dados são baseados na autodescrição dos participantes, o levantamento oficial será divulgado nas próximas semanas. A equipe de organização também foi diversa: 10 pessoas, a maioria mulheres, metade não branca, metade nordestina e metade bissexual, além dos estudantes que realizaram a cobertura do festival de forma descentralizada em diferentes regiões e instutições do país. 

As discussões foram divididas em cinco trilhas diferentes: meio ambiente, empreendedorismo, democracia, distribuição e diversidade.

Ailton Krenak falou sobre os ataques da ecologia da destruição, alertou para as práticas humanas e deu uma aula de meio ambiente em sua entrevista. A questão ambiental foi reforçada por Elaíze Farias, no papo “As Amazônias Brasileiras”.

Rosental Alves Rosental Alves, do Centro Knight de Jornalismo, falou sobre como financiar o jornalismo digital e independente, algo que conversou diretamente com a discussão em “Financiamento e sustentabilidade dos veículos digitais: por que ainda é tão difícil viabilizar?” e ambos se juntaram ao coro das mesas de empreendedorismo, que, entre outros ensinamentos, falou da necessária articulação em redes e do jornalismo feito de forma independente.

Na trilha da democracia, houve conversas importantes a respeito da influência das big techs no jornalismo digital e a desinformação que o jornalismo combate atualmente e o ódio direcionado a jornalistas. Entre outras discussões, também houve o lançamento do Instituto  Tornavoz, associação especializada na defesa daqueles que sofrem ameaças ou processos pela manifestação do pensamento, entre eles, jornalistas.

A distribuição do trabalho jornalístico foi abordada através de um papo sobre como entender melhor a audiência para pautar estratégias de divulgação, uma discussão sobre jornalismo científico – fundamental na pandemia – uma oficina de pauta e uma cobertura jornalística em redes sociais em outras mídias, como TikTok e memes.

Meios de colocar o antirracismo em  prática no jornalismo, um contato mais próximo com iniciativas independentes de comunicação das periferias de todo o Brasil e uma aula com Fabiana Moraes sobre a pauta como lugar de ativismo e reumanização nortearam os papos sobre diversidade do Festival.

Todas as mesas, oficinas e painéis estão disponíveis no canal do youtube do festival.

*Texto produzido pela redação-laboratório do Projeto Repórter do Futuro, da OBORÉ, para o Festival 3i 2022 como parte da Cobertura Colaborativa #FocaNo3i.

Confira a íntegra:

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