Pandemia, uma preocupação dos mais novos

A pandemia não afetou a saúde mental só dos adultos: crianças e jovens também precisaram de cuidados – Foto: Douglas Lopes

Pandemia, uma preocupação dos mais novos

O cuidado com a saúde mental de crianças e adolescentes foi um desafio a mais para as famílias, além da covid-19

Maré de Notícias #121 – fevereiro de 2021

Por Thaís Cavalcante

Por causa da pandemia, o bicho-papão mudou de cara e viver em 2020 foi um grande desafio também para crianças e adolescentes. Especialistas indicam que essa realidade mudou, para eles, a rotina, o sono, as atividades, a convivência familiar, a alimentação e a saúde mental, ainda que estejam fora dos grupos de risco da covid-19. O isolamento social e o medo de pegar a doença também tiveram seu impacto nessa parcela da população. 

Maria Eduarda, filha mais velha de Margarida Farias, moradora do Parque União, na Maré, tem 18 anos e vivia uma rotina regrada antes da pandemia, dividindo-se entre a escola, aulas de natação e passeios em companhia dos pais e do irmão caçula de dois anos. O surgimento do novo coronavírus representou para ela uma mudança drástica: Maria Eduarda exige cuidados tanto quanto seu irmão pequeno, por viver com a síndrome de Wolf-Hirschhorn, um transtorno de desenvolvimento mental e físico. Com a chegada da covid-19, a natação foi suspensa e seus trabalhos escolares agora são feitos à distância. Deixar de sair não foi uma opção, mas agora restringe-se ao seu tratamento de motricidade e às sessões de psicopedagogia, psicologia e fisioterapia.

Margarida tem ansiedade e conta que suas crises aumentaram durante a pandemia, agravadas pela síndrome do pânico, fruto do isolamento social e da preocupação com a filha, que também sentiu de perto essas mudanças. “Ela estava muito triste e não queria comer, postou até foto chorando nas minhas redes sociais. Percebi, também, que surgiram feridas na cabeça dela. Graças a Deus temos apoio psicológico para enfrentar isso. Os trabalhinhos escolares também passaram a ser estressantes para ela fazer de casa”, conta. Além de cuidar da saúde mental e lutar pela adaptação, o medo de pegar o vírus ainda é grande: muito álcool em gel, máscara ao sair e banho depois de chegar da rua. Ainda assim, um teste revelou que Maria Eduarda teve a doença há meses, mas sem apresentar sintomas.

O momento é de união familiar para cuidar da saúde mental – Foto: Matheus Affonso

Enfrentando medos reais

A educação e a saúde mental foram os maiores desafios de uma mãe que preferiu não se identificar. Hoje ela vive com o marido e a filha de 11 anos em Santa Teresa, mas são crias da Baixa do Sapateiro. A menina precisou de um cuidado a mais neste último ano, pois a pandemia piorou o quadro de ansiedade. “Ela se medicava, mas ficou sem tratamento por causa da covid-19 porque os postos só trabalham com emergências. Estava fazendo homeopatia pelo Sistema Unificado de Saúde (SUS) para questões hormonais e psicológicas”, conta. 

A mãe, que tem familiares na Maré, foi buscar no território apoio psicológico, mas não conseguiu. “Acho que devia ter mais comunicados sobre a saúde mental. Quem nunca teve problemas assim acha que é frescura, mas eles são o mal do século. Minha filha ficou meses sem querer ir à rua, mesmo de máscara, para visitar os avós porque tinha medo.”

Com a retomada das atividades econômicas e o início das aulas online, as pessoas tentam voltar à rotina anterior à pandemia. Neste início de ano, a população tem acompanhado a primeira etapa da vacinação contra a covid-19 no país mas, segundo especialistas, isso não deve ser motivo para diminuir os esforços e cuidados para evitar que o vírus continue a circular. O Brasil acumula cerca de 220 mil mortos e nove milhões de infectados pela doença desde fevereiro do ano passado, dando ao país o terceiro lugar entre aqueles mais atingidos pela pandemia. O Rio registra, em seus territórios populares e favelas, mais de três mil mortes e aproximadamente 30 mil casos de covid-19, de acordo com levantamento do Painel Unificador COVID-19 nas Favelas do Rio de Janeiro.

Espaço de cuidado para a favela

Muitos não sabem, mas crianças e jovens do Conjunto de Favelas da Maré podem ser atendidas no CAPSi Visconde de Sabugosa (em Ramos), uma unidade de saúde pública referência para casos de agravos em saúde mental. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, são atendidos cerca de 500 crianças e adolescentes da Maré. Para usar o serviço basta encaminhamento médico, seja de uma clínica da família, de um centro municipal de Saúde ou mesmo de uma unidade de emergência. O espaço também atende moradores do Complexo do Alemão, da Penha e de Vigário Geral.

Marcia Cristina, diretora do CAPSi, conta que houve um aumento significativo de casos agravados pela pandemia, considerando fatores sociais como o desemprego e a violência, por exemplo. Os atendimentos foram divididos em presencial (dentro da unidade ou através de visita domiciliar) e virtual. “A equipe técnica realizou monitoramento e acompanhamento dos casos através de recursos audiovisuais, videochamada e por WhatsApp”, explica. Para familiares ou responsáveis que não tinham acesso aos meios de comunicação, “a estratégia de saúde da família e a rede de suporte comunitária foram fundamentais”, destaca.

Para informar e conscientizar as famílias, a vivência infantojuvenil foi detalhada na Cartilha Saúde Mental e Atenção Psicossocial na Pandemia Covid-19, elaborada pelos pesquisadores colaboradores de Atenção Psicossocial e Saúde Mental do Centro de Estudos e Pesquisas em Emergências e Desastres em Saúde (CEPEDES) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). O material, disponível no site da fundação, mostra a vida de famílias com crianças durante o período de isolamento e quais são as alternativas possíveis para melhorar as diferentes situações enfrentadas. Acolher as angústias, conversar sobre o coronavírus, controlar o uso de tecnologia e equilibrar os horários de estudo estão entre as coisas que podem facilitar o convívio dos pequenos em casa.

Em maio de 2020, Eugênio Carlos Lacerda, psicólogo da ENSP/Fiocruz e especialista em psicologia clínica e educacional, participou de uma entrevista ao vivo no canal do BioFiocruz sobre as dificuldades em conciliar rotina de trabalho e estudos, convivência familiar e saúde mental nesse período. Lacerda afirmou que, para lidar com as emoções, é necessário ter mais carinho com nós mesmos e encontrar no convívio com as crianças as oportunidades para brincar e interagir. “As relações familiares não são como comerciais de margarina e a gente está inserido nessas relações. E temos os desafios com os filhos, como desobediência, preguiça, bagunças e a companhia para brincar, por exemplo. Faço um convite para que a gente olhe para isso e erre amorosamente.” 

Iniciativa realizada no Conjunto de Favelas da Maré em 2020, o Projeto CRIAndo Rede acompanhou 300 crianças, jovens e adolescentes mareenses durante a pandemia. O apoio psicossocial ofereceu diferentes ações para os moradores, como atendimento psicossocial online, visitas domiciliares e incentivo à produção de conteúdo sobre saúde mental, com a mobilização de jovens do próprio território. Um suporte importante para os jovens da Maré, tendo em vista que 52% da população do território têm até 30 anos, sendo 24,5% com até 14 anos e 27,4% entre 15 e 29 anos, de acordo com dados do Censo Maré. 

Foi ainda oferecido às famílias mais vulneráveis o Maré Card, um cartão pré-pago a ser usado de acordo com cada necessidade e urgência. A ideia do projeto foi criar e fortalecer a rede de apoio a crianças e adolescentes para que esse público, principalmente, se sentisse mais protegido nesse período tão incomum. A ONG Luta pela Paz liderou o projeto em parceria com a Redes da Maré, o Observatório de Favelas e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

mareonline

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