Conectados pela educação e tecnologia

Antes da pandemia, o grupo Peritech Maré reunia-se no Colégio Estadual Professor João Borges para desenvolver seus projetos de robótica – Foto: Douglas Lopes

Conectados pela educação e tecnologia

Iniciativas de aprendizagem que usam a tecnologia para a criação de projetos beneficiam jovens estudantes da Maré

Maré de Notícias #121 – fevereiro de 2021

Por Thaís Cavalcante

“A escola precisa ser um coração pulsante, produzindo transformações e cultura contra-hegemônica. Ela é pública, comunitária e livre para circulação de ideias. Se a escola faz parte do território, todas as instituições precisam circular, e o que eu fiz foi trazê-las: Associação de Moradores de Nova Holanda, Redes da Maré, Luta pela Paz, Vida Real, Museu da Maré, entre outras. Eu sou fruto dessa transformação política e social, toda a minha trajetória profissional se deu na Maré também”, conta Marcelo Belfort, diretor geral do Colégio Estadual Professor João Borges de Moraes, na Maré, sobre seu espaço de trabalho voltado para o ensino de tecnologia e empreendedorismo e as recentes conquistas de seus estudantes.

Inaugurado no território há apenas três anos, o colégio oferece ensino médio em horário integral e incentiva a participação de seus alunos em campeonatos educativos a partir de oficinas em parceria com o Serviço Social da Indústria (SESI) e a Redes de Desenvolvimento da Maré. Artur Castro, Camille Soares, José Rodrigo Leão, Judy Beatriz Faria e Lucas Ribeiro são os alunos do 2º ano do Ensino Médio do CE João Borges. A partir de seus estudos na área da robótica, eles decidiram entrar em competições.

O grupo de estudantes forma a equipe de robótica Peritech Maré, que mostra já em seu nome a mistura da periferia com a tecnologia. Eles representam tanto a escola como seu território em competições regionais e nacionais. Ainda em 2019, o grupo recebeu o prêmio Inspiração no Torneio SESI de Robótica First Lego League – Desafio City Shaper. Em 2020, a conquista foi ainda maior: o primeiro lugar na competição regional, disputando com equipes de todo o Brasil. Eles ainda levaram o 1º lugar na fase nacional do Torneio Brasileiro de Robótica 2020 e receberam o prêmio Superação na categoria High, composta por alunos com idade entre 15 e 19 anos, e na modalidade Organização e Método.

Marcelo conta que, para a vitória de seus estudantes, o que fez foi estimular o projeto de educação comunitária e não atrapalhar seu desenvolvimento. “Eles vão representar a favela na cidade, no estado e no Brasil. O colégio foi criado em 2018, mas pensado desde os anos 1980 pelo movimento social da Maré e construído ao longo dos anos. Começamos com duas salas e sem muita estrutura. Hoje somos uma escola pública de referência”.

O segredo é aprender fazendo

Antes da criação do CE João Borges, para ter acesso à educação profissional e tecnológica era necessário se deslocar até a Tijuca, como fez Jonatas Magno, morador da Nova Holanda. Ele teve a oportunidade de cursar o ensino médio em um modelo diferente de escola pública: o Colégio Estadual José Leite Lopes, mais conhecido como NAVE Rio. Com aulas em tempo integral e muitos laboratórios, ele garante que o colégio desafia o estudante desde a estrutura até as provas e trabalhos. 

“Além de experimentar o convívio com pessoas de todas as regiões da cidade, a gente não usava a tecnologia só em uma matéria técnica, mas em todas as matérias: criava um jogo a partir do conteúdo ensinado, seja ele de matemática, geografia… Isso deixava os trabalhos bem dinâmicos e fazia a gente usar o nosso jeito para entender a matéria, se expressar e se comunicar para mais pessoas”.

A experiência também deu a Jonatas o desafio de estudar as áreas de conhecimento básicas junto aos cursos técnicos, como roteiro para mídias digitais. Não à toa, escolheu o jornalismo como profissão. Ele, que sempre estudou em escolas públicas como a maioria dos moradores do Conjunto de Favelas da Maré, se sente privilegiado por ter feito o Curso Preparatório para o Ensino Médio da Redes da Maré e por passar na seleção do NAVE Rio. 

“Se você não domina a tecnologia hoje em dia não é um profissional qualificado. Mas a realidade é que os jovens da favela saem em desvantagem por causa da desigualdade. Poucas pessoas têm computador em casa e não existe estímulo para que elas aprendam certas coisas porque estão ocupadas com outras urgências, como trabalhar ou cuidar de algum parente”, afirma Jonatas. Em toda a Maré, pouco mais de 25 mil pessoas concluíram o ensino médio, o que significa 18% da população mareense. O levantamento é do Censo Maré (2019).

Alessandra Maia, pesquisadora de Inovação do Laboratório de Mídias Digitais LMD do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPGCom/UERJ), afirma que “quando se pensa na área de exclusão, os videogames e computadores fazem parte disso, ao contrário dos celulares”, explica. Junto à acessibilidade, aprender algo durante uma partida é praticamente uma consequência. Seja inglês, desenvolver pensamentos estratégicos ou até transformar isso em profissão. Ao contrário do ensino de matérias isoladas, a conexão da aprendizagem é facilitada. “É interessante que os jovens experimentem os jogos para testar as possibilidades e ver que, com o erro, você vai aprender mais do que com o acerto”.

A cultura de produção e tecnologias dentro das favelas cariocas tem se popularizado cada vez mais, a partir das possibilidades que cada espaço tem de engajar e produzir. Seja através de apoio governamental ou comunitário, as iniciativas existem e resistem.

Estímulo à educação tecnológica 

AfroGames é o primeiro centro de formação de atletas de esporte eletrônico (eSports) em uma favela. Criado pela ONG AfroReggae em Vigário Geral, reabriu em janeiro deste ano anunciando seu primeiro time de League of Legends. Saiba mais no site: www.instagram.com/afrogamesbr

GatoMÍDIA ​é uma rede criada no Complexo do Alemão, Zona Norte, que usa a metodologia de aprendizado em mídia e tecnologia para jovens negros e moradores de espaços populares através de cursos, encontros e eventos. Saiba mais no site: www.gatomidia.com 

Oi Kabum – Laboratório de Cultura Digital é um espaço para a formação e criação de projetos que envolvam arte e tecnologia, sempre relacionadas à cidade e a cultura, com intervenções públicas. Saiba mais no site: www.oikabumlab.org.br 

Nave do Conhecimento é um espaço com internet e cursos presenciais sobre empreendedorismo e tecnologia de forma gratuita. Com sedes espalhadas pela Zona Norte e Oeste, devido a pandemia, está oferecendo cursos online. Saiba mais no site: www.navedoconhecimento.rio 

E-base é um projeto de educação e cultura gamer localizado em Santa Teresa. Oferece cursos e palestras sobre desenvolvimento de games, arte com personagens de games e oficina de youtuber. Saiba mais no site: www.ebasegamer.com

mareonline

Artigos relacionados

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *