Marielle, presente. Hoje e sempre!

Foto: Elisângela Leite

Maré de Notícias #87 – abril de 2018

Vereadora nascida e criada na Maré é executada no Rio. O crime repercutiu no Rio, no Brasil e no Mundo

Maria Morganti

Quarta-feira, 14 de março:um calor escaldante, o termômetro bateu 33 ºC, mas a sensação térmica era infinitamente maior. Depois do expediente na Praça Floriano, s/nº, no prédio anexo, a quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro seguiu para um evento organizado por sua própria equipe, na Lapa, com jovens negras, para debater o movimento das estruturas contra o racismo. Às 21h04, embarcou com uma assessora e o motorista, Anderson Pedro, em um Chevrolet Agile branco.

Marielle Francisco da Silva foi sentada no lado direito, do banco de trás, seguindo pelos cerca de 3 quilômetros que separam o Bairro da Lapa do Estácio. Mãe de Luyara Santos, irmã de Anielle Silva e filha de Marinete da Silva e Antonio Francisco da Silva, o responsável por uma de suas autodenominações preferidas: “cria da maré”. Aqui, Marielle morou na adolescência até os 15 anos, no Conjunto Esperança, na altura do Palace, no Morro do Timbau; e na Baixa do Sapateiro. Seu avô paterno foi um dos primeiros moradores do conjunto de favelas da Maré, “Seu Francisco”, da Baixa do Sapateiro, que com a sua vendinha é homenageado no Museu da Maré.

Marielle Franco era presença constante nas comunidades e participou da inauguração da Casa das Mulheres da Maré | Foto: Douglas Lopes

Foi aluna, professora e chegou a ser coordenadora do curso pré-vestibular comunitário que deu origem a Redes de Desenvolvimento da

Maré. Entre idas e vindas das aulas, por causa da maternidade, aos 19 anos, Marielle chegou a ser aprovada para a primeira fase da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), mas foi na Pontifícia Universidade Católica (PUC) que formou-se em Sociologia, em cinco anos. Sempre conciliando a maternidade com o expediente,chegou a trabalhar na Viva Rio, Brazil Foundation, além de bicos em festas. Depois fez pós-graduação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e mestrado na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Administração Pública.

Quem viu a socióloga ser eleita em 2016, com o número de votos que ela sabia de cor, 46.502, não consegue imaginar que para ela, nos primeiros 100 dias de mandato, o lugar ainda não era “uma zona de conforto”. “Eu não estou no viaduto de Madureira, não estou na favela chamando a galera, não é isso. Tem todo um aparato da linguagem, da disputa linguística, da narrativa, do decoro. Se deixar, você passa a mudar o tom de voz, a forma”, contou em maio de 2017.

E para quem entrou na política institucional só por causa do contato com o então professor de História da irmã, que falava sobre a vida na favela, e esperava no máximo 27 mil votos, Marielle sacudiu o Rio. Com menos de 100 dias de tribuna já tinha apresentado dois projetos de lei. Ao todo foram 16. Todos voltados para seu foco de mandato: mulheres negras e pobres, como o “Projeto de Lei das Casas de Parto” em lugares com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), aprovado em outubro do ano passado.

No entanto, apesar de causas voltadas para esse grupo social, maioria esmagadora de moradoras de periferia, foi na Zona Sul  que a novata no Palácio Pedro Ernesto conquistou o número mais expressivo de votos: a maioria no Cosme Velho e Laranjeiras, seguido por bairros como Botafogo, Flamengo, Gávea e Leblon. Na Maré, Bonsucesso e Ramos recebeu tímidos 1.688 votos. Mas em todas as urnas do município teve pelo menos um voto para Marielle Franco.

A homenagem da Maré

Para responder uma pergunta sobre ambições políticas, Marielle disse, em 25 de maio de 2017, “hoje sei que cumpro um papel político que é mais amplo que eu, que é de um grupo de mulheres que se identificam, que é de um grupo de favelados e faveladas que se identificam. Sem querer ser retórica e poética. É objetivo”. Pouco mais de 10 meses depois, um carro parou ao lado do que estava Marielle e disparou 13 tiros. Quatro deles foram na sua cabeça. O motorista, Anderson Pedro, também foi atingido e morreu. Pouco antes das 22h, um site já anunciava a tragédia. O texto foi compartilhado nos grupos de aplicativos de mensagem. A esperança de que fosse uma fake news se esvaiu quando da declaração oficial, menos de uma hora depois. Um temporal caiu e ninguém conseguiu dormir.

No dia seguinte, às 11h, centenas de pessoas se reuniram na Cinelândia. A maioria vestia preto e debaixo do sol quente se abraçava, chorando, com um silêncio aterrador. Na tarde do mesmo dia, os corpos de Marielle e Anderson foram velados na Câmara de Vereadores, em cerimônia fechada para os familiares. O enterro foi no Cemitério do Caju, em seguida. Na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro outra manifestação, que seguiu com uma passeata com destino à Cinelândia.

No domingo seguinte, 18 de março, moradores, ativistas e Organizações Não Governamentais (ONGs) da Maré fizeram outro ato em homenagem a Marielle e a Anderson. Nesse dia, a impressão era que a tristeza estava dando lugar para a revolta e  energia para a ação.

A comoção pelo mundo

Marielle durante uma campanha “Somos da Maré: Temos Direitos!” | Foto: Douglas Lopes

Os protestos em repúdio ao atentado contra a vida de Marielle causaram comoção em todos os cantos do Brasil e do mundo. A Coordenação Nacional de Entidades Negras de Minas Gerais, entre outras 19 organizações e movimentos mineiros, afirmou por meio de Nota que, “Belo Horizonte se junta, nesse momento de dor e indignação, a todas as comunidades do Conjunto de Favelas da Maré e ao Rio de Janeiro, para expressar solidariedade às pessoas queridas do convívio de Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes”. Uma das cantoras mais famosas do mundo, Katy Perry, em show no Rio de Janeiro, no domingo, 18 de março, também fez uma homenagem à vereadora, com a presença no palco de suas familiares, Anielle e Luyara.

A Polícia Militar manteve-se distante do caso, inclusive dos atos públicos, que foram tranquilos e ordeiros, mas o Coronel da Polícia do Rio de Janeiro, Robson Rodrigues, homenageou Marielle em um post no Facebook: “ela defendia muito mais nossos policiais do que nós fomos capazes de compreendê-lo e de fazê-lo”.

Enquanto as ruas exibem cartazes com escritos como “Quem matou Marielle e por quê?”, há um esforço consciente dos que acreditam na democracia de compensar a perda pela multiplicação da força com que ela pautava a sua vida, em nome das causas nas quais acreditava. Também por isso, gritam em coro: “Marielle, presente. Hoje e sempre!”

 

 

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