Meu lugar no mundo

Do show do Rei Roberto Carlos à criação do Piscinão: muitas histórias para o idealizador do "Cineminha no Beco" lembrar e contar | Douglas Lopes

Músico, ambientalista e agitador cultural, Bhega escreve para o Maré de Notícias sobre a Praia de Ramos

Maré de Notícias #100

Bhega

Meu nome é Lindenberg Cícero da Silva, tenho 60 anos e sou conhecido como Bhega. Nasci na Rua B, nº 45, na Praia de Ramos, com a ajuda de uma parteira. Meus pais vieram de Remígio, na Paraíba. Naquela época, as pessoas se ajudavam para “subirem” os barracos. Minha irmã mais velha conta que, em 1958, aconteceu um incêndio na Praia de Ramos e as pessoas perderam suas casas. Meu pai tinha uma birosquinha de madeira e o fogo lambeu tudo. Por causa disso, ganhamos uma das casas feitas pelo governo, na obra do Parque Proletário, se não me engano. Os barracos foram construídos em vilas com ruas de A a Z e tinham piso de madeira. Crescemos ali.

A Colônia de Pescadores Z-11 doava peixes para todos os moradores. Tinha de chegar às 4h da manhã. Eu tinha uns 10 anos nessa época, por volta de 1969. Na Praia tinha campeonato de futebol de areia e era uma maravilha! Saíram muitos craques daqui, que chegaram a jogar profissionalmente em clubes do Rio e até em São Paulo. Existia o Clube de Futebol do Cerfa, time de terceira divisão, que recebeu, na década de 1960, o Rei Roberto Carlos, que estava começando na Jovem Guarda, para cantar no clube. E nos anos de 1987 ou 1988, teve até loteria esportiva do campeonato de areia da Praia de Ramos.

A Praia de Ramos era um dos pontos mais “bombados” da Zona Norte, imortalizada nas canções de Dicró e em filmes que foram gravados por aqui e pela Roquete Pinto. Antigamente, a região era um balneário e, onde hoje é a escola, funcionava um local em que as pessoas alugavam biquínis e se trocavam pra praia. O historiador João Lima conta que ali seria um cassino, pois tinha-se uma visão de que o ambiente ia crescer. João também conta que o Pixinguinha tomava banho na Praia de Ramos e que chegavam ônibus [feitos] de madeira, fazendo excursão. No verão, as famílias dormiam na areia por causa do calor. Levavam esteiras de palha e dormiam na beirada do mar. A gente não tinha ventilador em 1968.

Lembro-me da Praia de Maria Angu, antes de se chamar Praia de Ramos. Ela ia do Iate Clube Ramos até a Colônia dos Pescadores. Lembro-me dos desfiles de blocos que aconteciam na orla. “Banho de Mar à Fantasia” – o último aconteceu por volta de 1976 ou 1977. No final, tinha de entrar no mar com as fantasias de papel crepom. Era lindo demais! Não tinha briga, nem confusão.

No ano de 2000, teve o acidente do derramamento de óleo da Petrobras na Baía. Lembro-me que organizamos um evento chamado Abraço de Ramos. Eu, como músico, fui convidado pra cantar “SOS Praia de Ramos”, uma composição minha, de cima de um helicóptero, abrindo a cobertura que um jornal estava fazendo. O evento deu mais de 20 mil pessoas. Em 2001, inauguraram o Piscinão. Mas a ideia do Piscinão surgiu em 1992, de um amigo meu, chamado Vicente Paulo de Araújo. Morei na Praia de Ramos por 30 anos, saí quando me casei, mas continuo indo lá toda semana, é o meu lugar no mundo.

Você sabia?

*A Praia de Ramos tem 3.221 habitantes e 1.064 domicílios.

*É a única praia da Zona da Leopoldina.

*Já foi tema de música e teve papel de destaque em filme e novela.

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