Quem cuida de quem cuida? Profissionais da saúde da Maré relatam seu trabalho em meio à pandemia

A técnica de enfermagem Larissa Nobre. Foto: Hélio Euclides

Quem cuida de quem cuida? Profissionais da saúde da Maré relatam seu trabalho em meio à pandemia

Profissionais da Clínica da Família Ministro Doutor Adib Jatene, na Vila dos Pinheiros, falam sobre as dificuldades que têm encarado ao longo de um ano

Por Hélio Euclides, em 16/04/2021 às 18h
Editado por Andressa Cabral Botelho

Na pandemia algumas palavras novas entraram para o nosso cotidiano. Quando se falava de profissionais da saúde, a expressão mais utilizada foi e continua sendo linha de frente. São profissionais que estão diariamente no atendimento de pessoas que contraíram o coronavírus. Esses profissionais recebem nos hospitais e nas unidades de pronto atendimento (UPAs) pacientes muitas vezes em estado grave. Alguns destes pacientes passam primeiro pelo atendimento primário, ou seja, clínicas da família ou centros municipais de saúde (CMS), e, assim, são encaminhados para um atendimento especializado. Para saber como foi atuar na saúde em tempo de pandemia, o Maré de Notícias visitou a Clínica da Família Ministro Doutor Adib Jatene, na Vila dos Pinheiros, para ouvir quatro profissionais que contaram dificuldades, alegrias e momentos marcantes deste último ano.

Gleize Lane Moreira, de 41 anos, é agente comunitária de saúde há 5 anos. Ela começou sua trajetória ainda no extinto Posto Médico Gustavo Capanema, na Vila dos Pinheiros, e depois participou da inauguração da clínica da família. Lane conta que o trabalho é estressante, mas ao mesmo tempo gratificante. “Cuidamos mais dos doentes do que de nós mesmos. Antes da pandemia fazíamos visitas nas casas dos hipertensos, diabéticos e gestantes e os pacientes contavam detalhes de suas saúdes que não falavam muitas vezes para os seus familiares. Isso se perdeu com a pandemia. Mas não perdemos o contato, pois agora o acompanhamento é via telefone”, conta.

Um dos trabalhos dela na pandemia é o de informar o tempo todo sobre a prevenção, com álcool, máscara e distanciamento. A sua rotina mudou e com ela vieram os momentos difíceis. Dois momentos foram marcantes para ela: “Uma amiga de trabalho contraiu covid, saiu da unidade na ambulância e ficou internada na UPA Maré. Só ficamos felizes quando ficou boa e retornou para o trabalho. O outro caso infelizmente não teve final feliz… O profissional da radiologia foi a óbito. Ficamos pensando na hora ‘quem vai ser o próximo?’.” Mas o medo do vírus circula com Lane 24h por dia. “Tenho muito medo de levar o vírus para casa. É todo dia lavar as roupas e o cabelo. Já tem mais de ano que não visito a minha família”, desabafa.

Gleize Lane Moreira. Foto: Hélio Euclides

A agente já começa a sentir um alívio após tomar a primeira dose da vacina. Contudo, mesmo com a segunda dose ela continuará a usar a máscara sempre, por amor ao próximo. 

Com a paralisação de algumas atividades, Lane foi atingida em cheio ao concluir o curso técnico de enfermagem, pois ainda não conseguiu tirar o registro. Ela não vê a hora de tudo se resolver e poder ingressar na faculdade de enfermagem. A agente está confiante e acredita que a ciência ainda vai avançar mais e que a vacina é a luz no fim do túnel. 

Lane, que é hipertensa, poderia ter se afastado do trabalho por sua comorbidade, mas mesmo assim, ela preferiu continuar atuando. “Isso não me fez parar. Quero fazer parte da história, não por esperar em casa, mas por fazer tudo para cuidar do próximo e me sentir útil em uma pandemia. O que me deixa triste são as informações mentirosas sobre as vacinas, que acabam afastando as pessoas. Por isso, decidimos que vamos atrás em casa de quem não vier receber a segunda dose”, conclui. 

No início da pandemia, Lane levou um susto, pois apresentou os sintomas de covid. Naquela época, ela não conseguiu fazer o exame e, por apresentar os sintomas, foi afastada do serviço por 14 dias. 

Um furacão na vida

Igualmente à colega, Amanda Pereira Macedo, de 36 anos, também é agente comunitária de saúde e atua na região há 9 anos. Para ela, a pandemia foi pior do que trabalhar no espaço inadequado do extinto Posto Médico Gustavo Capanema. Ela lembra que tudo começou quando a mídia divulgou como estava a China. “O gerente da unidade na época explicou a todos que precisávamos nos preparar, pois podia chegar aqui. Então vimos os dois casos isolados na Fiocruz e sentimos que tinha chegado. Depois disso, a cada dia piorava. Então mudamos a forma de trabalho, com proteção para todos”, comenta.

O pior da pandemia para Amanda foi saber que os colegas de trabalho contraíram a covid, assim como, que teve a doença de forma fraca. Entretanto, ela viu o seu marido ter a forma mais forte. “Vi amigos, conhecidos e familiares doentes e alguns não resistiram. A minha tristeza é ver as pessoas sem a proteção da máscara. É preciso manter a higiene pessoal”, lembra. Mesmo com o cenário, ela lembra o que precisa fazer para que as pessoas se cuidem: “Nosso papel é conscientizar, pois tem gente que a ficha ainda não caiu. Não queremos que as pessoas só saibam o que é covid quando a doença chegar nas suas casas.”

Amanda Pereira Macedo. Foto: Hélio Euclides

Para Amanda, mesmo com tantas notícias ruins, ainda é possível ter um momento de esperança. “O que traz alegria, primeiro, é a essa corrente de solidariedade. Quando estava em casa, doente, com o meu marido, a Redes da Maré levou cesta e quentinha. Outra coisa é ver os idosos receberem a vacina e depois retornarem ansiosos e pedirem para saber se já é a data da segunda dose”, conta a agente. E, como brasileira, não desiste nem desanima: “Todos os dias acordo e peço a Deus para que esses números de contágio e óbitos caiam. Quero que acabe logo essa pandemia para poder ver o sorriso no rosto das pessoas.” A profissional tem um lema para sua atuação na clínica: “Amo a comunidade, por isso sou agente. O meu desejo maior é cuidar do próximo.”

Um começo na pandemia

Recém-chegada na unidade, Larissa Nobre de Souza tem 27 anos e é técnica de enfermagem. A sua carreira começou poucos dias antes do início da pandemia. “Foi difícil me adaptar à máscara, pois antes só usava esporadicamente. Agora são 11 horas seguidas usando a proteção. Também tivemos que conscientizar os usuários da clínica”, diz.

Por atuar na sala de vacinação, ela confessa que esse momento é de muita alegria. “É uma felicidade ver os idosos receberem a vacina e alguns se emocionam. O que é triste é ter pessoas que não querem receber as vacinas por receberem mentiras nas redes sociais e pelo WhatsApp”, ressalta. Larissa diz que ficou decepcionada ao saber de casos de profissionais que não aplicavam o líquido da vacina. A técnica de enfermagem destaca que o importante é fazer um trabalho ético. “Eu quero que a população toda receba a vacina e que esse vírus acabe logo. Sinto gratidão quando uma pessoa me agradece pela vacina”, comenta.

A Maré é o meu lugar

Com os dois pés no território, Queli Cristina de Silveira, de 37 anos, começou sua atividade profissional há 10 anos como enfermeira, na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Maré. Ela destaca que bons momentos de sua história aconteceram na Maré e que o território é uma escola. “Já me chamaram de louca, mas respondo que vale a pena trabalhar aqui, pois tenho o reconhecimento. Sinto que preciso atuar aqui por ser um lugar bem vulnerável e a população precisar da gente. Nosso trabalho é levar qualidade de vida para as pessoas”, avalia.

Queli Cristina de Silveira. Foto: Hélio Euclides

A enfermeira se sente triste quando percebe que as pessoas ainda não entenderam a gravidade da doença. “Um sentimento da pandemia também é o medo. Foi bem forte ver meus amigos doentes e perder um amigo que trabalhava no Hospital Estadual Carlos Chagas. Eu também tive medo quando tive covid; só pensava em minha mãe, por isso me isolei”, enfatiza. A profissional chegou a ficar com 25% do pulmão comprometido.

Sua maior alegria foi no dia 20 de janeiro receber as vacinas para aplicar nos profissionais e depois ver a procura por parte dos idosos, que chegam cedo na unidade. Ela está confiante no futuro. “É preciso continuar com os cuidados, mesmo os vacinados, pois com a variante o curso da doença é mais rápido. O importante é que não vamos recuar e que cada dia é uma vitória. O futuro é sem máscara, com abraços e andando livre”, conclui.

Andressa Cabral Botelho

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