Refugiado angolano, Nizaj é parte da comunidade que constrói a Maré

Foto: Mayara Donária/A Maré Vê

Refugiado angolano, Nizaj é parte da comunidade que constrói a Maré

Acolhido na favela, morador é voz com sotaque além-mar

Por Thais Cavalcanti em 14/05/22 às 7h

Muitos perguntam, mas ô Nizaj: por que só falas do Salsa e Merengue? É que aquele povo sempre está a sorrir, mesmo nos dias em que passam perrengue. De Angola eu vim pra Maré. Não há ilusão, o caminho foi longo. A letra foi feita lá na Rua C e tá comentada no meio do Congo. Nunca nade contra a Maré. Onde já tem mais de 5 mil angolanos. Perguntaram se era para ficar, mas nem se ligaram que nós já tomamos. 


Trecho da música Salsa e Merengue

Nizaj é músico, ator e percussionista. Em carreira solo desde 2019, essa é a primeira vez em que combina sotaque carioca e angolano no mesmo rap. Para ele, foi um momento de liberdade, assim como ser mareense. Nzaje Vieira Dias, 24 anos, adotou o nome artístico Nizaj (a pronúncia do seu nome pelos brasileiros) e passou a ser conhecido assim. Nascido em Luanda, capital da Angola, o encontro do rapper com o conjunto de favelas da Maré aconteceu bem cedo. 

Aos dois anos, a família de Nizaj decidiu deixar o país africano. A motivação foi a mesma de 600 mil refugiados: a guerra civil entre dois movimentos do país, a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) e o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). A disputa iniciada depois de o país declarar sua independência de Portugal, durou 27 anos e mergulhou Angola em uma guerra fratricida (conflito entre compatriotas).

Para o rapper, mudar de realidade não foi opção. “Imigração é uma necessidade do angolano. Queremos viver outra vida. Procurar um futuro. E eu me sinto adotado pela Maré. Tudo o que sei de Angola, aprendi dentro de casa. Hoje, compartilho o meu conhecimento aqui”, declara.  

Nizaj é conhecido por todos os angolanos da favela pelas músicas que compõe. Se hoje em dia/, sou correria/ é por ser cria do Salsa e Merengue. Salsa é uma favela vizinha à Vila do Pinheiro e à Vila do João, territórios que reúnem o maior número de angolanos na Maré: o Censo Populacional da Maré (2019) registra 278 imigrantes estrangeiros, mas circula no território a informação de que esse número seria bem maior.

Da Maré para o mundo

Ainda que a comunidade seja parceira, ser favelado nunca foi fácil. Quando se vive na Maré, o acolhimento é enorme, mas os desafios fora dela são muitos. Nizaj aprendeu o sotaque de Angola dentro de casa; o carioca, levando o estilo de vida da cidade. São 22 anos de Brasil e de Maré — metade do tempo na Vila do Pinheiro e a outra metade no Salsa.

Ele lembra o quanto as pessoas eram curiosas quando percebiam que ele tem traços diferentes de um jovem favelado dali: “Por que você fala rápido?” “O que fez seu nome ser diferente?” “Você veio do Nordeste?” Agora, ele só responde quando perguntam.

A conexão com seus compatriotas é instantânea, quando os encontra na rua: “Falo com o sotaque de Portugal, que é a nossa língua de origem”. Ele mistura dentro de si as identidades nacional e estrangeira. É o irmão mais velho de quatro; fincou raízes no país ao constituir sua própria família (sua filha completou dois anos), o que reforça sua conexão ainda maior com o Brasil.

Suas produções não param: a Black Owl Records, uma produtora nascida na Maré. A hashtag #damarepromundo é muito falada pelos MCs do coletivo, que se divide na produção de beats, instrumentais, edição, designs entre outras demandas. Nesse cenário, Nizaj faz as letras e a produção executiva – conseguir ser o produtor e marcar shows.

“Eu não sei se nasci prodígio, mas meus pais 

sempre me moldaram para ser”

Foto: AMaréVê/Mayara Donária

Atuação, rima e protesto

As apresentações semanais são rotina hoje dentro de uma trajetória que começou ainda na infância. “Desde os oito anos eu escrevo algumas letras com um estilo rapper. Gostava de cantar cover em saraus, mas pensava: ‘Preciso ter minha própria música.’” Foi assim que ele partiu para a profissionalização, e o rap Recarregue nasceu — sua primeira letra militante marcou sua trajetória.

Viver de música faz parte dos seus planos profissionais; ele agora trabalha em um rap autoral. A Black Owl Records pretende revelar novos MCs em breve; para conferir o trabalho dos artistas que se lançam por esse selo/coletivo,acesse o canal da produtora no YouTube e na Spotify.

Como ator, Nizaj também põe em pauta o valor da educação antirracista para a periferia. Ele foi um dos moradores que representaram a Maré na série exibida pela Globoplay e pelo Canal Futura: Seta – Caminhos Possíveis: por uma educação antirracista.

Pedaço de Angola na favela

A família de Nizaj não foi a única a escolher a Maré como destino: assim como os nordestinos, os angolanos construíram uma nova vida para si e suas famílias. Segundo o relatório do Comitê Nacional para os Refugiados, eles são 9% dos estrangeiros que fugiram de seus países e aportaram no Rio de Janeiro. Na Maré, eles formaram sua maior comunidade, a partir dos anos 1990, transformando a Vila do Pinheiro em uma “Pequena Angola”, como é conhecida até hoje.

O que facilitou esse movimento para o conjunto de favelas da Maré também foi a localização: perto do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro e próximo das principais vias da cidade, como a Linha Vermelha, a Linha Amarela e a Avenida Brasil. 

Chegando na Maré, a vista é ainda mais familiar. Bandeira vermelha pintada na parede, os bares oferecem comidas típicas e os ritmos angolanos — valem uma visita o Bar da Carmita, o Bar do Fidel e o Bar do Azzizze, numa peregrinação gastronômica cultural que começa na Via C11, esquina com a B3, na Vila do Pinheiro. “Essa é a favela mais multicultural da Zona Norte. Recomendo experimentar o mufete, prato de Luanda feito à base de peixe, o funge, a comida mais popular do país, muito parecida com o angu brasileiro; e a cerveja Cuca, marca importada de Angola”, recomenda Nizaj.

Você sabia? Em períodos de guerra, o movimento de pessoas imigrantes e refugiadas é comum e impacta todo o mundo. Quase um mês de invasão russa na Ucrânia produziu cinco milhões de refugiados. Segundo a Polícia Federal, até abril o Brasil recebeu 894 ucranianos.

Entenda a diferença entre imigrantes e refugiados:

Imigrantes – pessoas que saem do seu país de origem por escolha, em busca de melhores condições de vida em outro país.

Refugiados – pessoas que saem do seu país de origem por conta de perseguições ou guerra, em busca de melhores condições de vida em outro país.

Continue lendo sobre a história de Angola na Maré!

  • Na edição #100 do Jornal Maré de Notícias, publicamos a matéria “Uma Maré Angolana”, contando a história de Lica, uma das primeiras angolanas a viver no Conjunto de Favelas da Maré.
  • Na edição #107 do Jornal Maré de Notícias, publicamos a matéria “Nzaje: a cultura como refúgio”, contando a história artística do jovem.

Se você encontrou um erro de ortografia, notifique-nos por favor, selecionando o texto e pressionar Ctrl + Enter.

mareonline

Artigos relacionados

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Obrigado!

Nossos editores são notificados.