Sábado com operação policial e vacinação suspensa na Maré

Sábado com operação policial e vacinação suspensa na Maré


Clínica da Família Adib Jatene e Centro Municipal de Saúde da Vila do João suspenderam a vacinação por causa da ação da polícia que começou por volta das 14h de hoje (27/3). Duas pessoas foram atingidas pelos tiros, um jovem de 19 anos morreu.

Da Redação em parceria com o projeto De Olho na Maré, da Redes da Maré, em 27/03/2020 às 19h05.  

Moradores de duas favelas da Maré – Vila do João e Conjunto Esperança – foram surpreendidos, por volta das 14h de hoje, com uma operação do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar – BOPE.  Houve relatos de muitos tiros dos intensos confrontos armados.  Parte do início da feira da Vila do João foi afetada, com mercadorias que foram destruídas. 

Minutos depois de entrarem na Vila do João, os  policiais avançaram para a região da Vila do Pinheiro e Salsa e Merengue. Neste horário, acontecia a campanha de vacinação para Covid-19 na Clínica da Família Adib Jatene e Centro Municipal de Saúde da Vila do João. Por volta das 15h, ambas as unidades interromperam a imunização. Segundo a assessoria de imprensa da  Secretaria Municipal de Saúde, funcionários e pacientes permaneceram dentro das unidades e depois foram liberados.

Momento que o caveirão entrou na Maré, por volta das 14h.

Os policiais circularam a pé e, também,  em dois carros blindados. Há relatos de moradores que tiveram carros e motos danificados na Vila do João. Comerciantes do Conjunto Esperança disseram que policiais obrigaram a fechar seus comércios.

Cristian Matheus, de 19 anos, foi atingido na ponte que liga o Conjunto Esperança a Vila do João. O rapaz foi levado ao Hospital Getúlio Vargas e não sobreviveu. Ainda não há informações sobre o enterro.

Na Via A1, na Vila do Pinheiro, uma mulher, de nome Cremilda, foi atingida no rosto. Moradores afirmam que outro jovem também foi atingido pelos tiros no Conjunto Esperança e levado pelos policiais no blindado. O jovem, segundo relatos, não teria sobrevivido.

A equipe do De Olho na Maré, Redes da Maré está de plantão  desde às 16:30h e não registrou  confrontos nem circulação de policiais nas ruas da Maré, desde então. 

Caveirão passando pela Vila do João.


A assessoria de imprensa da Polícia Militar, informou por e-mail, que a ação teve como objetivo reprimir criminosos na região, e não há ainda informação de prisão e nem de apreensão de drogas e armas. O Maré de Notícias questionou a assessoria sobre a notificação ao Ministério Público Estadual  sobre a excepcionalidade da ação, conforme determina a ADPF das Favelas. Mas até agora não tivemos a resposta.

A assessoria  confirmou, ainda, às 17h25, que a operação permanecia em curso.

Esta semana, lideranças de favelas do Rio de Janeiro realizaram uma reunião com o governador do estado, Cláudio Castro, e reforçaram o receio quanto às operações policiais no período do recesso sanitário. Os representantes ainda ressaltaram a importância do cumprimento da determinação do STF que suspende operações policiais no período da pandemia da covid-19. O governador se comprometeu a emitir uma recomendação às polícias sobre as operações.

ADPF das Favelas

A ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas foi impetrada em novembro de 2019 pedindo que fossem reconhecidas e sanadas as graves violações ocasionadas pela política de segurança pública do estado do Rio de Janeiro à população negra e pobre das periferias e favelas diante do enorme número de operações policiais ocorridas nestes territórios.

Em junho, o ministro Edson Fachin, em liminar referendada em agosto pelo plenário do STF, que as operações policiais no Rio fossem suspensas durante a pandemia de covid-19, salvo em hipóteses absolutamente excepcionais, que devem ser devidamente justificadas por escrito pela autoridade competente, com a comunicação imediata ao Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro. A decisão do colegiado também pediu uma série de medidas que deveriam ser adotadas pelo Governo do Estado do Rio, com intuito de reduzir os impactos causados pela violência nesses locais. Nenhuma medida foi cumprida pelas autoridades fluminenses.

Daniele Moura

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