De mulher para mulher

Três profissionais da saúde contam da importância de cuidar das mães e bebês através da campanha do aleitamento materno - Foto: Douglas Lopes

Profissionais relatam como é trabalhar no incentivo ao aleitamento materno

Hélio Euclides

Não é só  em agosto – mês conhecido por simbolizar a luta pelo incentivo à amamentação – que se deve falar deste assunto e das doações do leite materno. A amamentação deve ser incentivada todos os dias do ano. Isso foi mostrado na edição 45, de setembro de 2013, quando o Maré de Notícias mostrou um curso sobre a valorização do leite materno ministrado pela técnica de enfermagem Zilda Santos. Os centros municipais de saúde Vila do João e do antigo Hélio Smidt receberam ao final o status de Amigos da Amamentação. Já na edição 83, dezembro de 2017, o Maré de Notícias acompanhou o trabalho do antigo CMS Samora Machel de coleta de leite materno para doação. O que se percebe é que todos os profissionais envolvidos na valorização do aleitamento materno e na coleta de leite têm um estímulo a mais para fazer o ofício: o amor pelo  trabalho. 

E nada melhor do que três mulheres experientes em aleitamento materno para que possamos saber mais sobre o assunto. Convidamos Zilda Santos, assessora técnica de Aleitamento Materno da Coordenação da Área Programática da 3.1 (Maré); Maria da Conceição Salomão, coordenadora da Área Técnica de Aleitamento Materno da Secretaria Estadual de Saúde; e Danielle Aparecida da Silva, coordenadora do Banco de Leite Humano do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira da Fiocruz para uma conversa, confira.

  1. Como foi o início do trabalho de cada uma de vocês no mundo do aleitamento materno?

Zilda: Em 2004 fui trabalhar na atenção primária, três anos depois especificamente em aleitamento e recolher o leite para doação. Já em 2015, o trabalho virou um projeto que durou até 2018. Esse projeto foi premiado três vezes. Conseguimos entrar com o trabalho em 20 unidades e priorizei a Maré pela mortalidade infantil ser muito alta. 

Maria: Isso começou há quase 46 anos, não como pediatra. Quanto tive filho não tive assistência do profissional e sim da minha mãe. Só com o apoio dela que consegui sucesso no ato de alimentar. Percebi que eu precisava ajudar como mulher, pois sou sensível, então me tornei pediatra.

Danielle: Eu era estudante da engenharia de alimento e procurava um local de estágio. Então uma professora me recomendou o Instituto Fernandes Figueira. Fui selecionada, conheci todos os processos de trabalho do banco de leite humano e fui bolsista de iniciação científica. 

  1. E como foi a trajetória deste trabalho?

Zilda: Entramos em todas as unidades da Maré e eram coletados 53 frascos por semana. O projeto acabou em 2018, mas as pessoas que foram sensibilizadas continuaram fazendo sem recursos. Hoje tem os potes, mas poucas unidades estão trabalhando a doação, pois falta a pessoa que faça a captação. O coordenador da área apoia com um veículo para fazer o transporte do leite, mas quando não tem esse carro levamos no meu carro, na moto da minha amiga, de BRT, mas levamos. Nesse momento na Maré quase não tem doação, está recomeçando. 

Maria: Faço parte da equipe de formação ao aleitamento que elevou o Brasil à excelência, com investimento no pré-natal. 

Danielle: Depois do mestrado, fiz uma prova e voltei como servidora. E depois me tornei a gerente desse banco de leite. 

  1. Como é feita a conscientização da importância do aleitamento e da doação?

Zilda: Na verdade, para a mulher ser doadora é preciso ser captada desde o pré-natal. Antes eram feitos oito encontros, na qual se falava do pré-natal dela, da gestação e a doação. Quando ela ganhava o bebê já estava sensibilizada. Agora, uma mulher ou outra encontra um profissional sensibilizado que explica que ela pode ser uma doadora.

Maria: É no pré-natal que começa o trabalho de formação da amamentação. Nessa fase que se tira as dúvidas, elabora roda de conversas com troca de experiências. 

Danielle: A amamentação é um ato natural, mas muitas das vezes as mulheres apresentam dúvidas e fragilidades. Ela precisa de apoio. Os bancos de leite são esses centros de apoio ao aleitamento materno, no qual ela pode buscar de forma gratuita um profissional de saúde que vai apoiá-la e tornar a amamentação possível, sem dor e sem incômodo. Vai dar saúde para o bebê e para essa mulher. Que as mulheres em caso de necessidade ou as que produzem mais leite que o seu bebê consome, procurem um banco de leite. 

O Centro Municipal de Saúde João Cândido, em Marcílio Dias, recebe doações de leite materno – Foto: Douglas Lopes 

  1. Que tipo de ajuda uma   mulher grávida  no pós parto precisa?

Zilda: O que percebo nessas mulheres é que a informação faz toda a diferença na vida delas. Porque a indústria do leite faz um marketing muito pesado. Quando elas recebem informações no pré-natal ou em grupo de gestante fortalece o amamentar. A rede de apoio é muito importante, estar sozinha é muito difícil. Quando a mulher tem um bebê, ela precisa fazer uma reorganização da identidade dela. Antes era só uma mulher, agora é uma mãe com uma criança no colo, que às vezes nem sabe como vai dar conta e os primeiros dias são difíceis porque ela não dorme direito. Então necessita de uma rede apoio, como do/a parceiro/a, da família, de alguém que segure a criança e de pessoas que acabem com os mitos, como a mamadeira e do leite fraco. 

Maria: Não se pode julgar a mulher porque ela não conseguiu alimentar o seu filho com o leite materno. Cada uma tem um corpo biológico, depende do ambiente psicossocial. Sabemos que o seio é o produtor de leite, mas não é só isso que vai indicar o sucesso na amamentação. É preciso ter cuidados com a mãe. Se ela precisar, vamos encaminhar para um banco de leite. 

Danielle: Há dois processos: um que é assistência ao aleitamento materno, apoio profissional às mulheres que estão amamentando, e outro é caso tenham dúvida ou intercorrência, como alguma fissura no seio, ingurgitamento mamário e mastite. Ela pode procurar ajuda no banco de leite humano, que vai encontrar uma equipe multidisciplinar para tornar essa amamentação prazerosa para ela e para o bebê. Isso vai ajudá-la a manter a amamentação exclusiva até os seis meses e de forma continuada até dois anos e meio ou mais.

  1. Quais os desafios do trabalho atualmente?

Zilda: Vou continuar, isso é uma missão para mim, com verba ou sem. Agora tem uma rede de pessoas que apoiam dentro das unidades. Às vezes é preciso apenas 1ml para fazer um revestimento no intestino, como um medicamento na UTI. Cada gota tem 200 imunizantes, algo fundamental para os prematuros, algo que não é encontrado nas fórmulas lácteas. Cada frasco de leite de 300 ml alimenta 10 prematuros, então qualquer doação é importante. Se nos dessem condições, conseguiríamos leite para todos os prematuros. Essa é uma política de pobre para pobre, não gera dinheiro para os políticos, por isso não há interesse.

Maria: Hoje o país está próximo dos 50% de bebês que recebem exclusivamente o leite materno nos seis primeiros meses. Para elevar esse número é preciso cuidar da saúde dessa mulher e do seu filho. A sociedade precisa entender que o aleitamento materno é a maior forma de sustentabilidade do mundo. Que só o corpo de uma mulher é capaz de produzir alimentação e saúde para o planeta.Danielle: Sinto gratidão a todas essas mulheres doadoras, por me darem a oportunidade de salvar pequenas vidas e por exercer a minha profissão num setor que pode ajudar muitas mulheres e muitos bebês. Emoção sempre, quando vejo um bebê que nasceu com menos de 1,5 quilogramas ganhando peso saudável, tendo alta hospitalar. Felicidade por está trabalhando nessa rede de proteção à vida. Orgulho da gente poder ter valores e resultados tão positivos, também de ser uma ferramenta do Sistema Único de Saúde para diminuição da mortalidade infantil.

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