Sem espaço para isolamento

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Com o pico de contágio previsto entre os meses de abril e maio, condições adversas obrigam moradores de favela a tomar cuidado dobrado e até a improvisar para evitar o contato com o novo coronavírus

Maré de Notícias #111 – abril de 2020

Flávia Veloso

Um vírus altamente contagioso se instalou nos cinco continentes, infectando mais de 1,351 milhão de pessoas e matando mais de 75,5 mil, até a tarde do dia 08 de abril. Para tratar quem já está doente e evitar que o contágio continue crescendo muito, governos do mundo inteiro recomendam e determinam que a população se isole em suas casas e intensifique cuidados com a higiene corporal e objetos.

Em previsão feita pelo Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, o pico de contágio no Brasil deve acontecer entre os meses de abril e junho. O estado do Rio é o segundo com o maior número de casos e óbitos do país, com 1938 casos e 106 mortes, e se as recomendações para o isolamento não forem respeitadas, haverá um número de casos acima do que o sistema de saúde pode suportar.

Questões estruturais que dificultam isolamento

Há alguns fatores que dificultam que o isolamento seja feito da maneira exigida nas favelas, como moradias pequenas, com poucos cômodos, muito próximas umas das outras e onde residem muitas pessoas, dificultando a circulação de ar e o isolamento das pessoas. Essa é a realidade das favelas cariocas, o que pode dificultar o respeito às medidas de prevenção propostas pelos órgãos de Saúde.

Além das condições estruturais das moradias, os trabalhadores que não foram liberados de seus empregos correm o risco de levar o vírus para dentro de casa, sem esquecer a constante falta d’água nessas regiões, dificultando os cuidados com a higiene. É uma questão de tempo para que o coronavírus se espalhe pelas favelas cariocas. Para frear isso, é necessário que todos adotem cuidados.

Letícia Felix é formada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Moradora do Parque Rubens Vaz, na Maré, ela relata sua própria experiência: “Somos seis numa mesma casa, o que torna o isolamento mais difícil. Nem todos os dias todas as ações [de prevenção] são bem-feitas. São dias difíceis e fora da nossa rotina, mas estamos conseguindo, aos poucos. O que não conseguimos é o distanciamento, a casa não é grande.”

Uma vantagem da casa de Letícia é a boa circulação de ar, algo que não é comum a diversas outras moradias: “Algumas são muito pequenas, nos fundos de becos, só têm a porta de entrada e um basculante bem pequeno que, mesmo aberto, não dá vazão”, contou.

Especialistas da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) responderam a algumas perguntas, orientando e dando dicas de como os moradores de favelas podem se prevenir durante a quarentena. Houve também uma coletiva de imprensa da Fundação com comunicadores de favelas para tirar dúvidas, entre elas, a questão da aglomeração involuntária e do isolamento social.

Autoridades discutem planos

Para lidar com a questão da aglomeração involuntária a que são submetidos os moradores de favelas, os governantes do estado e município do Rio estudam isolar ao menos as pessoas do grupo de risco, que são indivíduos com mais de 60 anos, diabéticos, hipertensos, cardíacos, com deficiência do sistema imunológico, aqueles que fazem uso de medicamentos com corticoide e aqueles em tratamento de câncer.

A Prefeitura do Rio, por meio da Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos (SMASDH), regulamentou hotéis e disponibilizou mil vagas para receber idosos assintomáticos que moram em favelas da capital fluminense e possíveis acompanhantes, mas a proposta teve baixa adesão e sobram muitas vagas a serem preenchidas. Os selecionados ficarão em uma acomodação e terão direito a três refeições diárias (café, almoço e janta) em seus quartos, além das comodidades oferecidas e hospedagens, como lençóis, toalhas e sabonete. “Entre os critérios, estão ter 60 anos ou mais, morar em comunidade da Zona Sul – região da cidade que concentra o maior número de casos – morar em locais onde não seja possível o isolamento domiciliar e ter capacidade de autocuidado e autonomia para locomoção”, explicou a assessoria. A proposta de isolamento da SMASDH é abrigar e proteger pessoas do grupo de risco moradoras de favelas que não estejam contaminadas.

Moradores denunciam falta d’água em várias residências

Dezenas de casas nas localidades de Nova Holanda, Baixa do Sapateiro, Morro do Timbau, Vila do João e Vila dos Pinheiros vêm sofrendo falta d’água durante a pandemia. Após nosso contato, a Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (CEDAE) informou que visitou os endereços, concluiu que estão abastecidos e sob monitoramento da Companhia. “A CEDAE está colocando nas ruas, em caráter emergencial, 40 novos caminhões-pipa para atender prioritariamente as solicitações de comunidades da Região Metropolitana do Rio de Janeiro”, completou. A empresa não respondeu quais locais receberam ou receberão os caminhões-pipa. As atividades operacionais e de manutenção da CEDAE estão mantidas, mas devem ser solicitadas apenas pelo telefone 0800-2821195 ou pelo site da Companhia.

Fiocruz responde sobre o isolamento e as aglomerações

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Do Conjunto de Favelas da Maré à conferência da 19a reunião de cúpula do G20, a trajetória de Kaya Bee, moradora da Nova Holanda é um exemplo inspirador na luta por um futuro mais justo e sustentável. Aos 27 anos, mãe, ativista climática e estudante de jornalismo, ela carrega a força e a resiliência de quem enfrenta os desafios da vida na favela com a determinação de transformar a realidade para os mareenses.