Território de memórias: As historiadoras obstinadas

Encontro das jovens moradoras da Maré no Festival Mulheres do Mundo WOW em 2018. Ana Clara é a segunda da esquerda para a direita | Foto: Douglas Lopes / Redes da Maré

Território de memórias: As historiadoras obstinadas

“Pro mundo em decomposição. Escrevo como quem manda cartas de amor”.

Por Ana Clara Alves

Minha avó se chama Josenita Fernandes Paiva nos documentos, inclusive na minha certidão de nascimento, mas é chamada por todos de Dona Edinha. Ultimamente eu estou chamando ela de baú de memórias, das minhas e das dela, que são paralelas e se cruzam em alguns momentos. 

Descobrir que nossas narrativas são paralelas, mas não iguais, e ver a luta dela para que nenhuma mulher da família que viesse depois tivesse a mesma narrativa, que não sofresse nem o pingo do que ela passou. Preenchi um buraco e abri outro.  

Minha família veio do interior do estado da Bahia, minha mãe disse que da cidade natal dela dava pra ver o Monte Pascoal, Itamaraju. Eu não sei se realmente dá, mas ela se orgulha em dizer que dá e que foi o primeiro pedaço de terra visto pelos invasores portugueses, também não sei se é verdade. 

Mas aqui vai uma verdade que descobri nesse reconhecimento: Minha avó sempre costurou a vida com fios de ferro, parafraseando Conceição Evaristo.

O fio de ferro da minha avó foi a educação. Uma mulher preta do interior da Bahia, filha mais velha de 7 – criou os seis irmãos, mãe de 4 – por mais que uma tenha se ido, avó de 3 garotas e bisavó de 1. Estudou só até a quarta série, mas faz as contas de cabeça e me ensinou a tabuada. Ajudou minha mãe em todo o meu processo de alfabetização – a ver as horas e as cores… –  e quando chegou o momento em que ela não “conseguiria me ajudar pelo nível escolar dela”, ela continuou. Nem que fosse pra ficar sentada enquanto outra pessoa me explicava, mas ela estava lá. 

Me lembro de estar sentada na mesa da cozinha com ela do meu lado e com os livros que foram dos meus tios e da minha mãe ali. Lembro disso durante o fundamental, durante o ginásio – onde o grande desgosto e respeito pela matemática apareceu, durante o ensino médio e principalmente durante o vestibular. Minha avó é uma das maiores inspirações da minha vida e sempre fez questão de deixar claro que o fio de ferro que ela costurou a vida seria mais leve para mim. 

Durante a pesquisa, que foi um um processo intenso de diversas formas, eu me reconheci e aprendi a reconhecer a Josenita, que é muito mais que minha avó. 

Aprendi a vê-la como mãe, filha, irmã e, principalmente, como mulher. Uma mulher que agarrou todas as oportunidades que a vida lhe ofereceu e fez um para costurá-la. Um fio de ferro.

Se fosse para descrever o sentimento de participar da coletiva e da exposição eu diria que precisamos chamar o Emicida e tocar AmarElo e citar bastante bell hooks, ter um pouco de Taís Amordivino e agradecer a Conceição Evaristo e à imensa biblioteca que a Julie montou. Agradecer a todos eles não só pela influência na pesquisa, mas também na vida. E o fato de ter vivido momentos bem intensos do lado de pessoas que eu amo tão profundamente. Eu sei que toda vez em que ouvir alguma faixa de AmarElo ou esbarrar com o nome de alguma dessas autoras, isso vai me trazer alguma memória desses encontros. 

Começaria com a faixa Principia, rememorando 2018 – onde tudo ainda era meio mato e meio Festival Mulheres do Mundo WOW -, e depois iríamos para Eminência Parda, para a minha própria eminência na verdade que entraremos em algum tópico ou não. E vim parar em uma pesquisa que começou em 2019, que talvez a faixa seja A Ordem Natural das Coisas e o último capítulo de No seu pescoço de Chimamanda Ngozi “a historiadora obstinada”, mas aqui vamos colocar no plural: as historiadoras obstinadas. Ana Clara, Julie Any, Stefany, Rayanne, Lorena e todas as mentoras ao longo dos anos.

Agradecer à Kelly Marques e ao Daniel Remilik por acharem que seria a melhor coisa do mundo reunir 15 adolescentes, isso em 2018, que nem se conheciam direito, com personalidades fortes e mil e uma diferenças. Facilitaram um caminho e, como em todo percurso, algumas ficam por sentirem que finalizaram ali o seu caminho e outras continuam. No fim, acabaram juntando esses jovens que querem e contam suas histórias, mas que buscam no passado coisas para se protegerem no presente. Para eles: Cananéia, Iguape e Ilha Comprida.

À Juliana Sá, que me ensinou tanta coisa que tenho a sensação de que nunca agradeci. Ju foi quem deu o start na faixa A Ordem Natural das Coisas, deu a ideia de pesquisar as nossas famílias e acolheu quando o processo foi dolorido. Já aqui nessa mesma faixa também podemos agradecer a Tais Amordivino pelo incrível filme Motriz e por nos explicar, já em 2020, o que a gente estava sentindo desde de 2018. “Você sabe a diferença entre saudades e falta?”, eu não sabia até aquela conversa no WOW 2020, a saudade pode ser “matada”, mas a falta pode ser preenchida? Alguns professores aceitam atestados médicos para isso, a gente achou que, catucando, o buraco preencheria. 

À Luana, por ter me mostrado uma nova forma de me expressar. E eu não fui a melhor aluna. Por ter lembrado o porquê do texto Vivendo de Amor de bell hooks ter que ser sempre revisitado e que, às vezes (ou sempre), eu posso deixar meu corpo Libre assim como a minha mente. E por reforçar que nem todo buraco é bom de se enfiar, em alguns casos, é melhor deixar as coisas do jeito que estão. E, especialmente, por, em um momento tão difícil, atar alguns nós frouxos nas pesquisas e em nós mesmas.

Lu, também te dedico um capítulo de Olhos d’água de Conceição, pois você me lembrou de um pacto silencioso que vem com o nosso nascimento: A gente combinamos de não morrer.

À Casa das Mulheres por nos abrigar e ajudar a fechar um ciclo de pesquisas e concretizar um sonho.

Para a Coletiva Maré de Nós, um agradecimento pela experiência e por conseguir preencher um buraco, abrir outro e a me reconhecer.

Porque a minha experiência foi essa. Reconhecer-me como a menina magra, de cabelo quase sempre rebelde, sorrindo nas fotos e nas histórias da minha avó. 

“elas se tornaram mais vis, eram gritadas por minhas ancestrais, por Donana, por minha mãe, pelas avós que não conheci, e que chegavam a mim para que as repetisse com o horror de meus sons, e assim ganhassem os contornos tristes e inesquecíveis que me manteriam viva.”

Torto Arado, Itamar Vieira Junior.

Para a minha coletiva, minha mãe, minha avó e todas as ancestrais que me deram um fio de ferro.

Registro durante prática corporal na Casa das Mulheres | Foto: Bia Pires

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Ana Clara

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