Transição e paternidade trans sem exotização

Foto: Zayre Ferro

Transição e paternidade trans sem exotização

Conheça a trajetória de afeto e respeito do artista Zayre Ferro e seu filho adotivo João

Maré de Notícias Edição #137 – junho de 2022

Por Samara Oliveira

Ainda é frequente vermos a sociedade tratar a paternidade transexual de forma sensacionalista e desrespeitosa — como algo “exótico” e bizarro. Zayre Ferro, multiartista de 29 anos, é uma das pessoas que lida com as dores e as delícias da paternidade trans. O filho do artista, João, de apenas sete anos, tem muito que ensinar sobre respeito, empatia e, principalmente, sobre a naturalização dos corpos trans para a sociedade. 

Antes da transição de gênero do artista, João se referia a Zayre como mãe, pelo vínculo que já possuíam. No entanto, assim que o artista comunicou que não era uma mulher para o menino, no dia seguinte João já o chamou de pai.

“Quando o Zayre nasceu, o pai do João nasceu. Ele sempre me apoia. Tanto no meu processo de transição emocional, quanto no processo hormonal. Ele que fala que estou lindo, ele que acha minhas roupas bonitas e descoladas. Meu filho é o meu melhor amigo, meu maior incentivador. Só de falar sinto vontade de chorar”, relembra, emocionado, o morador do Morro do Otto, em Niterói, região metropolitana do Rio.

O Brasil é um lugar perigoso para pessoas trans e, com base nisso, Zayre reforça um dos seus maiores desejos: “Não quero que meu filho seja atravessado pela transfobia”. Para o artista, os maiores desafios são externos. 

“Com o meu filho propriamente dito, eu não tenho nenhum desafio sobre isso. É a galera normativa que não está preparada para a inclusão de pessoas trans nas áreas comuns. Muita gente ainda reforça o estereótipo de que as pessoas trans são promíscuas que vão estar só nas ruas, nas esquinas.”

Zayre Ferro

Ele conta que, “quando eu tô na reunião dos pais na escola do meu filho, é um pouco complicado. Nas primeiras vezes que eu fui me senti muito ansioso, muito em crise, porque eu vi os olhares das pessoas e tal. Mas com meu filho, eu nunca tenho problema nenhum, sabe? As pessoas falam assim: ‘Nossa, mas é seu pai?’ João fala: ‘Sim, é o meu pai’”.

Processo de adoção

Ser pai não era um sonho cultivado pelo artista. A ausência paterna na sua vida o fez criar certa resistência. Antes da sua transição de gênero, ele foi escolhido pela família biológica de João para ser o padrinho do menino. Mas quando João nasceu, Zayre e sua mãe se tornaram a principal rede de apoio para a família da criança. Segundo ele, o vínculo se deu de tal forma que foi o próprio João que começou a chamá-lo de mãe na época. 

Com a família biológica do pequeno cada vez mais em situação de vulnerabilidade e o vínculo se estreitando, as famílias legalizaram junto à Vara da Família o processo de adoção de João pelo artista quando o pequeno tinha quatro anos. “Quando eu vi João pela primeira vez, já me apaixonei de uma forma muito doida. Ele é meu amor de todas as vidas. A palavra ‘pai’ foi muito doida de ouvir. Eu transicionei e no outro dia ele falou: ‘pai’. Tomei um baque, um choque. Eu não tive pai, isso me remetia à ausência. Pensei realmente em ser para ele o pai que eu não tive, sabe? Presença, atenção, carinho, explorar sentimentos e respeitá-lo”, explica.

Pai e filho, juntos, cultivam afeto em relação. Foto: arquivo pessoal.

Transição e arte

O primeiro contato de Zayre com o mundo artístico se deu ainda no ensino fundamental com a banda da escola. Depois de um período afastado da arte, ele conheceu os projetos audiovisuais criados na Casa Nem, centro de acolhimento do Rio que abriga pessoas LGBTQIA+, e foi novamente fisgado. 

A transição de gênero do pintor se deu justamente através da arte. À medida que produzia suas criações, ainda de forma anônima, Zayre retomou sua própria identidade enquanto pessoa trans. Com isso, também se reconheceu enquanto artista, passando a ganhar dinheiro com seus quadros. Ao mesmo tempo, teve imediatamente sua transição reconhecida por uma das pessoas que mais importa para ele: João, seu filho. 

O momento de transição é um processo que, apesar de libertador, traz insegurança, medo e muitos questionamentos.

“Como contar para minha família?” “Vou ser expulso de casa?” “Vão me aceitar?” “Vou ter ajuda para passar por isso?” O caso de Zayre não fugiu a essa realidade. Antes mesmo de se entender como trans, brigou com a família por se relacionar com mulheres e saiu de casa aos 16 anos. “Foi uma decisão dolorosa, mas precisei me escolher.”

Zayre Ferro

Depois da briga, viveu um tempo sozinho, mas conseguiu reconstruir a relação com a mãe, com quem vive até hoje. Em 2020, no dia do seu aniversário, Zayre anunciou no seu Facebook: “Neste dia tão especial, eu compartilho com meus amigos meus novos ciclos. É nesse (dia que) eu faço 28 anos e me entendo nos pronomes masculinos e neutros, eu já tive medo de vir aqui nessa rede pra falar isso e hoje eu tenho orgulho. EU SOU UMA PESSOA TRANS. Feliz vida pra mim sendo cada vez mais eu mesmo”, escreveu, recebendo felicitações e apoio dos amigos na rede social.

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Samara Oliveira

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