Um guerreiro chamado Jorge

Imagem de São Jorge. Foto: Matheus Affonso

Um guerreiro chamado Jorge

Santo é adotado pelo povo carioca como símbolo de luta

Por Hélio Euclides, em 23/04/2021 às 5h
Editado por Andressa Cabral Botelho

“Vou acender velas para São Jorge. A ele eu quero agradecer. E vou plantar comigo-ninguém-pode. Para que o mal não possa então vencer” Esse refrão da música Pra São Jorge, de composição de Pecê Ribeiro e cantada por Zeca Pagodinho, é uma das dezenas de canções feitas para o santo guerreiro. São milhares de pessoas que matam um dragão todo dia e, com fé, pedem para estar vestidos com as roupas e as armas de São Jorge.

Devido ao apelo popular, em 2001 a data virou feriado municipal carioca. Mas o dia do santo que derrubou até dragão só foi reconhecido como feriado estadual pela Lei nº 5.198, de 2008. Posteriormente, em 2019, com a Lei nº 8393, São Jorge e São Sebastião, os dois soldados guerreiros, foram oficializados como padroeiros do Estado do Rio de Janeiro. Apesar da comemoração ser apenas no dia 23 de abril, é crescente a fé no santo também ao longo do ano, com mais e mais adesivos em carros, estampadas em roupas e tatuagens são vistos pelas ruas da cidade. 

Hoje, existe no Rio um mercado próprio em torno do santo. As vendas acontecem ao longo do ano, mas ganha força no dia 23, principalmente nas redondezas das igrejas cujo santo é padroeiro. É possível encontrar de tudo: toalhas estampadas, camisetas, chapéus, quadros, todas tendo como base as cores vermelha e branca, além das medalhinhas, santinhos de papel e estatuetas. Tudo para reforçar a fé em São Jorge. Sem esquecer das comidas. Além da tradicional feijoada, é possível encontrar barracas vendendo doces, pasteis e churrasquinho.

O santo é tão popular que virou nome de novela, sendo invocado pelos devotos também como protetor dos animais domésticos. São Jorge é cantado por grandes nomes como Caetano Veloso, Jorge Ben Jor, Seu Jorge, Maria Bethânia, Alceu Valença, Jorge Vercillo, Jorge Aragão, Zeca Pagodinho, Alcione, e Racionais MC’s, entre outros. Músicas para todos os gostos, são inúmeras, como Pra São Jorge, Chuva de Cajus, Jorge da Capadócia, Medalha de São Jorge, Líder dos Templários, Espada do Dragão, Alma de Guerreiro, Lua de São Jorge, Ogum/Oração de São Jorge, De Lá, São Jorge Guerreiro, São Jorge, Cavaleiro de Aruanda, Guerreiro de Oxalá, Depois do Temporal, Domingo 23 e Cavaleiro do Cavalo Imaculado.

“São Jorge é o Santo de quem anda na noite , dos sambistas , dos guerreiros . É  o Santo que nos protege dos perigos. Este ano, assim como no ano passado, a festa de São Jorge terá que ser feita em casa, por causa da saúde, esperando uma melhora pro mundo. Vamos todos nos cuidar para que em breve possamos fazer um festão para São Jorge e para todos os santos do Rio de Janeiro e do Brasil”, destaca Zeca Pagodinho, que sempre reforça a sua fé em Jorge nas suas músicas.

Mas não é só o Rio de Janeiro que caiu nas graças do santo. O Corinthians adotou o santo porque, em 1926, inaugurou sua sede no Parque São Jorge, que fica no bairro do Tatuapé, em São Paulo. No Rio, a partir dos anos 1970, o santo passou a estar presente nos desfiles de carnaval. Não há uma pesquisa, mas o que se observa é que a cada ano aumenta o número de seguidores de Jorge. “Com o tempo observei que o santo guerreiro é reverenciado com diversidade. Acredito que o sincretismo que essa data representa é maior que tudo que podemos questionar”, avalia Inês Nogueira, professora que já atuou na Maré. Antes da pandemia, ela fazia a tradicional feijoada para amigos e familiares no dia do padroeiro. 

Uma festa regada a fé e feijoada 

Feijoada de São Jorge na quadra do Boca de Siri. Foto: Elisângela Leite

Assim como a professora, muitos realizam feijoadas em vários locais da cidade. Alexandre de Mello, mais conhecido como Dão, do Grupo Nova Raiz, relembra os festejos. Já fizeram duas edições, nos anos de 2018 e 2019. “Decidimos colocar o nome da nossa feijoada de Guerreiros do Samba em alusão a nossa guerra diária para manter o samba vivo dentro de nossa comunidade. Ano que vem vamos retornar com muita energia essa festa que virou tradição na Maré”, afirma.

Dão explica que o santo é invocado em tantas músicas pela proporção de número de devotos que tem. “Música é inspiração, tanto no momento em que se está deprimido, como em uma oração para se livrar dessa fase, ou quando estamos alegres, para agradecer. Ele é uma divindade que liga religiões, por meio do sincretismo. Ele se confunde entre Jorge e Ogum, na igreja ou no gongá, como diz a música Filhos de Jorge, de Juninho Thybau, Ronaldo Camargo e Jorjão. Quem é devoto consegue flutuar no meio de duas religiões”, diz. O músico percebe que a representatividade vem da população brasileira, que é guerreira. “É um povo que supera as guerras, como essa que estamos passando, não apenas a do vírus. Uma multidão que se apega à força do santo guerreiro para poder se manter de pé”, comenta.

Pelo segundo ano seguido, os fiéis vão precisar se manter em casa e ter fé no santo guerreiro para vencer mais essa demanda até a vacinação chegar a todos. A tradicional festa, que costuma atrair cerca de 1,5 milhões de pessoas em Quintino, na Zona Norte, e 150 mil pessoas no Centro, pode ser transferida para 23 de outubro. Entretanto, para que aconteça, a maioria da população precisa estar vacinada contra o coronavírus. Tanto a igreja de Quintino quanto a do Centro ficarão de portas fechadas para evitar aglomerações. 

Duas missas sem público estão programadas para acontecer às 10h e às 18h nesta sexta-feira e serão transmitidas pelo canal Rede Vida e pelas redes sociais da Igreja de São Jorge de Quintino. A igreja da Praça da República também fará três missas às 7h, 15h e 18h para celebrar a data. 

Igreja de São Jorge da Praça da República. Foto: Andressa Cabral Botelho

História de um guerreiro

Jorge nasceu no século III na Capadócia, região da atual Turquia, mas viveu na Palestina, onde foi capitão do exército romano. Ao enfrentar o imperador Diocleciano ao afirmar ser cristão, foi degolado. Depois de morto, tornou-se padroeiro de Portugal, além de outras diversas cidades, como: Londres, Genova, Moscou e Barcelona. Pelo século V, São Jorge era inscrito entre os maiores santos da Igreja Católica. Com a reforma do calendário litúrgico, realizada na década de 1960, a observância do dia de São Jorge tornou-se facultativa, por não haver documentação histórica, mas apenas relatos tradicionais. Ele foi rebaixado a santo menor, de terceira categoria. Por pressão popular, ocorreu a sua reabilitação como figura de primeira instância em 2000, quando a igreja conferiu nova relevância a São Jorge.

Para devotos, é mais uma das histórias que exaltam mais ainda a admiração pelo guerreiro. “Eu me identifico com São Jorge por ser um santo que teve a coragem de lutar contra o império romano, a favor dos cristãos e defender sua fé. Me impressiona a figura do dragão, entendo que representa o mal. Peço a intercessão dele nos combates do dia a dia”, comenta Vinícius Gama, morador da Vila do João. Ele sempre faz questão de participar de celebrações no dia destinado ao santo, como outros inúmeros cariocas.

Além do catolicismo, o dia 23 também é celebrado pelos umbandistas, que aqui no Rio São Jorge é sincretizado com Ogum. Essa aproximação pode ser historicamente reconhecida na Guerra do Paraguai, quando vários negros participantes do conflito professaram que a vitória na Batalha de Humaitá teria sido fruto da proteção do orixá. 

Ogum é o guerreiro, general destemido e estratégico, é aquele que veio para ser o vencedor das grandes batalhas, o desbravador que busca a evolução. Defensor dos desamparados, Ogum andava pelo mundo comprando a causa dos indefesos, sempre muito justo e benevolente. Ele era o ferreiro dos orixás, senhor das armas e dono das estradas. Irreverente, pois é um orixá valente, traz na espada tudo o que busca.

Esse orixá tem energia masculina, o que o faz buscar vibrações femininas na Lua. Essa relação tem influência da cultura africana. A tradição diz que as manchas apresentadas pela Lua representam o seu cavalo e sua espada, pronto para defender aqueles que buscam sua ajuda. 

A lenda do dragão

Há algumas versões sobre a lenda da morte do dragão. A mais conhecida retrata que às margens de um grande lago na Líbia escondia-se um enorme dragão que aterrorizava a população local. O dragão tinha o hálito venenoso que podia matar toda uma cidade. Uma princesa serviria de oferenda, para conter a fera. Ao passar pelo local e ver a jovem princesa chorando às margens do lago, Jorge subiu no seu cavalo e partiu para cima do dragão, que rosnava tão alto quanto o som de trovões. Mas Jorge não teve medo e enterrou sua lança na garganta do monstro, matando-o. Depois disso, São Jorge virou um símbolo de força e fé.

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Andressa Cabral Botelho

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