Um jeito novo de fazer a educação na pandemia

Laura Gomes com seus filhos Caio e Helena, alunos da Escola Municipal IV Centenário - Foto: Matheus Affonso

Escolas da Maré se reinventam para levar conteúdo aos estudantes

Por Hélio Euclides em 29/10/2020 às 18h

Um livro que já foi muito recomendado por professores, Ensaio Sobre a Cegueira, do autor português José Saramago, fala de uma epidemia que atinge uma cidade e interrompe a vida dos moradores. Este ano, o mundo também foi atingindo por um vírus que deixou a grande maioria em casa, travou projetos e forçou o fechamento até de escolas. Professores não ficaram de braços cruzados, mesmo, cheios de incertezas e descobriram que o ambiente virtual podia ser um aliado para a continuidade das atividades. Cada escola criou o seu jeito de chamar a atenção dos alunos, e surgiram inúmeras iniciativas de professores e escolas, que já recebem, pelos esforços, a nota 10.

Uma dessas iniciativas é o Sarau Digital, da Escola Municipal IV Centenário,  uma das 46 escolas municipais da Maré. O projeto ocorria presencialmente da unidade que fica na Baixa do Sapateiro, antes da pandemia de covid-19, mas em junho de 2020, migrou para o on-line. Todo bimestre, os estudantes do 1º ao 6º ano das 11 turmas da unidade escolar se reuniam no pátio para realizar a apresentação de um livro. Hoje, a ação ocorre de forma on-line. A escola viu na internet uma oportunidade de manter os alunos aprendendo e trocando informações, mesmo que de casa. O Sarau se tornou digital e passou a acontecer toda quarta-feira e sábado, via Facebook e WhatsApp.

De casa, os alunos gravam histórias, cantam músicas e usam o canal de comunicação para levar mais diversão e ensinamentos aos colegas. Diariamente, são passadas atividades para os alunos, no intuito de se manter uma rotina e o vínculo com o projeto. Era desta forma que acontecia, em dias de operação policial, pelo WhatsApp, e que, agora, tornou-se rotina na pandemia. “Planejamos atividades que possam engrandecer as crianças e suas famílias neste momento tão diferenciado. A pandemia nos fez conhecer muito mais nossos alunos e suas famílias”, diz Alessandra da Cunha, diretora.

Para Laura Cristina Gomes, mãe de Caio Luís, do 4º ano e Helena, do 1º ano, o trabalho dos profissionais da escola merece todo reconhecimento. “Nesse período pandêmico, eles são totalmente acessíveis, se reinventaram para permanecer oferecendo uma educação pública de qualidade. Todos os desafios que enfrentamos em família para nos adaptarmos a esse novo formato de educação à distância foram minimizados pela parceria com a escola”, conclui.

Um programa de TV feito de alunos e informações

Alunas participam lendo poesias durante o programa Reconecta Bahia – Créditos: Escola Municipal Bahia

Segundo o Censo da Maré de 2019, as 16 favelas que compõe o bairro Maré têm 17.573 alunos na rede municipal. A  Escola Municipal Bahia atende a estudantes do 6º ao 9 e criou o  projeto Reconecta Bahia para fortalecer os laços dos alunos em tempos de pandemia. A iniciativa é realizada pelos professores com a Sala de Leitura e começou em julho, a partir da reunião realizada com a equipe de psicólogos da Secretaria Municipal de Educação. Ao perceber que os estudantes se sentiam distantes uns dos outros devido ao isolamento social, a equipe da escola decidiu criar um espaço para que eles pudessem se reconectar mesmo em quarentena.

A ideia do Reconecta Bahia é estimular o uso da internet, mostrando as habilidades dos colegas fora da escola. Toda sexta-feira, é publicado um vídeo, enviado por um estudante, no Facebook da escola. Em casa, eles gravam o que têm feito durante a pandemia. São aceitas várias atividades, como resenha de livros, textos autorais, músicas, jogos, receitas, prática de esportes, entre outras. “Isso tem elevado a autoestima deles, permitindo que os estudantes se percebam mais próximos uns dos outros. Os pais também se empolgam, entram nos vídeos e nos dão um retorno muito positivo”, destaca Flávio Aragão, diretor.

As pautas do programa são montadas de acordo com as respostas dos próprios alunos. As ideias vão surgindo a todo momento. “Toda edição exige muita determinação, paciência e compromisso. Mas, cada vez que conseguimos concluir um programa, ficamos mais empolgadas para fazer o próximo”, diz a professora Renata Lopes. O  projeto também quer mostrar que a escola é o espaço de interação, convivência, troca, lazer e aprendizado. “O distanciamento social causado pela pandemia quebrou o elo da escola com os alunos. O vínculo precisava ser resgatado. O Reconecta vem com a proposta de reintegrar e reconectar a comunidade escolar”, expõe Sandra Vieira, professora.

A apresentação dos programas é feita pela aluna Ana Julia Dantas, que revela ser difícil essa nova forma de estudar, pois exige muita concentração. “Precisamos de muito apoio dos pais que nem sempre estão disponíveis. Estudar sozinha tem sido um desafio, mas, para minha sorte, tenho tido apoio dos professores”, conta. Com relação ao programa, a estudante fala que está sendo uma experiência incrível, que a anima muito nesse período de pandemia, além de ser ótimo apresentar os talentos dos colegas. Ela já pensa em cursar jornalismo no futuro e, quem sabe, apresentar muitos outros programas.

Um aplicativo para o conhecimento

A Escola Municipal Ginásio Olimpíadas Rio 2016, que fica na Nova Holanda, implantou o Laboratório Ampliado de Convivência Escolar (LACE). O LACE é um projeto que oferece conteúdo aos alunos, mesmo quando eles estão em casa. A tecnologia está em funcionamento há quatro anos e era usada quando a escola ficava fechada durante as operações policiais ou quando os alunos ficam afastados da sala de aula por motivo de doença. Quando veio a pandemia, os alunos começaram a utilizar ainda mais a plataforma. Para os profissionais da unidade, esse foi o momento de ampliar o projeto, com foco em aperfeiçoar a ação. Hoje, o laboratório atende 648 alunos do 7º ao 9º ano.

A ferramenta tem o objetivo de garantir o direito à educação da criança e do adolescente. “Os alunos devem ter continuidade no acesso à escola. Mesmo sendo virtual, eles precisam receber o conteúdo e prosseguir o vínculo escolar. Percebo os professores engajados e os alunos interagindo” destacou Ana Flávia Teixeira, diretora. Em função de alguns alunos terem relatado dificuldade de acesso aos conteúdos on-line, a direção disponibiliza internet gratuita no pátio para os alunos que precisem baixar o conteúdo.

Se conhece alguma atividade que se reinventou com a pandemia envie para o Maré de Notícias. Vamos ilustrar positividade!

A educação em números

A rede municipal de ensino do Rio de Janeiro conta com 1.542 unidades escolares em funcionamento, com 643.053 alunos. Das 44 unidades escolares da Maré, 22 são de Ensino Fundamental, 14 Espaços de Desenvolvimento Infantil, sete creches e um Centro de Educação de Jovens e Adultos.

Nos 13 bairros da região da Leopoldina administrados pela 4ª CRE – Coordenadoria Regional de Ensino, incluindo a Maré,  são 67.599 alunos.  Destes, 47.273 são estudantes do Ensino Fundamental, que fizeram provas no final de 2019, com percentual de 93,1% de aprovação e outros 6,9 estudantes reprovados. 

O Censo da Maré (2019) mostrou uma taxa de analfabetismo de 6% entre pessoas com 15 anos ou mais idade, superando em mais que o dobro do índice na Cidade do Rio de Janeiro, que é 2,8%. Os dados do Censo apontam que 53,47% dos  moradores não completaram o Ensino Fundamental, 18,6% completaram e  8% nunca frequentaram a escola.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor, digite seu comentário
Por favor, digite seu nome aqui