Acolhimento, resistência e close: cultura ballroom representada na Maré

Ativistas da Maré vivenciam cultura ballroom | Foto: Matheus Affonso

Acolhimento, resistência e close: cultura ballroom representada na Maré

Movimento tem suas raízes em Nova Iorque, nos Estados Unidos, mas já conta com atividades espalhadas por diversas regiões do Rio e do Brasil

Por Tamyres Matos, em 11/11/2021 às 07h. Editado por Edu Carvalho

Ballroom, em tradução literal do inglês, quer dizer “salão de baile”. Mas o movimento é muito mais abrangente do que o nome dá a entender. Especialistas no tema e frequentadores dos balls (bailes) utilizam os termos “cultura” e o já citadomovimento” para defini-lo. Pode-se dizer que o ballroom é um desdobramento da cultura hip-hop (tem todo aquele clima das batalhas, só que com outros elementos), cujo início aponta para a resistência LGBTQIA+ na Nova Iorque (EUA), nos anos 1980. Na Maré, as primeiras reuniões acontecem em 2018. Em ambos os cenários, as lideranças são pessoas queer (minorias sexuais e de gênero) pretas cheias de vontade de viver, resistir e acolher.

Brainer Lua, de 24 anos, estuda o assunto no seu curso de teoria da dança na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mulher trans, a estudante nascida e criada na Vila do Pinheiro é uma das idealizadoras do movimento cultural dentro da Maré. “Desde 2017, eu me interessei pelo assunto e comecei a estudá-lo na faculdade em 2018. Conheci pessoas do movimento na aula de hip hop no Museu da Maré. A proposta era e continua sendo resgatar alguns corpos LGBTQIA+ para a cultura ballroom”, relembra.

A mareense explica que o aumento do interesse pelo tema – e por integrar o movimento – tem relação com o sucesso do seriado Pose, da Netflix. A série fez história logo em sua temporada de estreia, ao ser a primeira com protagonismo trans a ser indicada para o Globo de Ouro (2019) de melhor série de drama – conquistado por The Americans -. Para Brainer, o movimento ballroom está só no começo da sua história na Maré e no Brasil, mas há espaço para muito crescimento. “Nesse momento, estou em Belo Horizonte, em Minas Gerais, para batalhar. E, além dos bailes espalhados por diversas partes do Rio, também já estive em São Paulo e no Distrito Federal”, relata.

Os muitos termos em inglês ainda utilizados remetem à origem estadunidense, mas os integrantes do movimento acreditam que os brasileiros envolvidos na evolução conseguem traduzir culturalmente aquilo que não é universal. “Eu tive esse acolhimento e comecei a entender melhor todo o histórico da vivência de ‘corpas’ trans periféricas negras. É a minha vivência, minha realidade. Eu me desenvolvi politicamente para resistir na militância que vivemos, querendo ou não, diariamente. O ballroom no Brasil desenvolveu uma linguagem política que está associada a nossa cultura, muito diferente da vivência lá fora. Temos a nossa comunidade”, opina Nickols Wally, conhecida no movimento como Princesa Wallandra, membro da Pioneer Kiki House of Cazul, uma das primeiras houses (casas) do Rio de Janeiro.

Brainer Lua é uma das idealizadoras do movimento ballroom na Maré e estuda sobre o assunto na UFRJ | Foto: Matheus Affonso

Resgate da história

A popularização dos balls acontece entre 1980 e 1990, mas é possível dizer que a semente do momento é a década de 1960, com concursos de drag queens. Neste período, as tensões raciais ganharam projeção e a busca por visibilidade, especialmente no caso da parcela negra e latina da população LGBTQIA+. Neste cenário, Crystal LaBeija, estadunidense transgênero, reuniu parte dessas pessoas em uma house em 1972 (House of Labeija), sendo creditada por boa parte dos pesquisadores como a fundadora do sistema doméstico na cultura ball.  

Neste salão, encontrava-se muito mais do que visuais deslumbrantes e um espaço para diversão. A proposta era a criação de um lar, um local de acolhimento com mães, pais, filhas e filhos. Uma casa de família. “Quando você é rejeitado pela sua mãe, pelo seu pai… você vive procurando alguém para substituir o amor que você sente falta”, desabafa a protagonista Blanca Evangelista (MJ Rodriguez), mulher transgênero que descobre ser portadora do vírus HIV em 1987, no episódio piloto de Pose.

Para Brainer Lua, o movimento é um espaço onde ser fora do padrão não é motivo para exclusão. Vencedora de 28 grand prizes (que podem ser troféu, dinheiro…) em diversas competições, a pesquisadora, organizadora, jurada e competidora acredita que o Ballroom ainda é o local onde o povo preto, latino e fora do padrão heteronormativo se expressa livremente.

“Estamos falando de ‘corpas’ e corpos diferentes e válidos reunidos. Se a pessoa quer fazer parte do movimento artístico, é só trazer a inspiração e participar. O ballroom veio depois do surgimento da cultura drag e abrange muitos movimentos LGBTQIA+, une todos eles. Eu digo que é uma árvore com várias ramificações, levamos especialistas para falar sobre cuidados com as ISTs (infecções sexualmente transmissíveis), produtores culturais, gente que se monta, homens gays que preferem não se montar… é complexo e rico”, afirma.

Nas palavras de Blanca, de Pose, os “bailes são reuniões de pessoas que não são aceitas em outros lugares. Celebrando uma vida que o resto do mundo não considera digna de celebrar”.

Glossário Ballroom

Ballroom: espaço de acolhimento, troca de afetos, conscientização e acesso aos serviços de proteção ao HIV. Comunidade que gira em torno arte e busca reproduzir a segurança de um ambiente familiar que respeita a diversidade dos corpos e personalidades;

Ball: baile para celebração de potências, onde os(as) participantes “desfilam” nas categorias dança (vogue), sensualidade e melhores roupas;

House (casa): organização semelhante a uma família e maneira como o movimento é dividido;

Chop (cortar, picotar): ser eliminado de um ball;

Mothers (mães) e fathers (pais): líderes das houses, responsáveis pelo acolhimento e organização;

Children (filhos): integrantes das houses;

Grand prize: premiação após os duelos nos balls;

Legend(ary): personalidade célebre na cena, com vários grand prizes;

Princesses e princes: filhos que são considerados “braço direito” dos pais, geralmente alguém um pouco mais velho que os outros. Elas e eles ajudam a mensagem dos pais a chegar mais rápido aos outros filhos;

Voguing: dança de rua inspirada nas poses das modelos da revista Vogue.

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Tamyres Matos

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