De vassoura na mão, garis não deixam o lixo no chão

Além da coleta de lixo e varrição de ruas, garis realizam uma série de outros trabalhos, como a remoção de resíduos de encostas – Foto: Douglas Lopes

De vassoura na mão, garis não deixam o lixo no chão

Profissionais da limpeza enfrentam desafios do dia a dia com amor à profissão

Maré de Notícias #124 – maio de 2021

Por Hélio Euclides

Quando realizou o primeiro serviço de limpeza urbana, em 1876, a pedido do imperador Dom Pedro II, o francês Pedro Aleixo Gary não imaginava que o seu nome ainda seria diariamente lembrado, 145 anos depois. São os garis – homens e mulheres – que recolhem o lixo e limpam diariamente as cidades do Brasil os homenageados do dia 16 de maio, data instituída pela Lei Municipal n° 212, de 1962.

Os garis são profissionais socialmente invisíveis (ou ignorados) pela população por desempenharem um trabalho que não infere glamour e status, embora seja de extrema importância. Para o doutor em psicologia Fernando Braga da Costa, o fenômeno da invisibilidade social se dá a partir de dois fatores: coisificação e humilhação social. Na coisificação, ele entende que a pessoa é o que ela produz. Como consequência disso, vem a humilhação social. Segundo o pesquisador, o gari e o lixo seriam um único elemento, o que permitiu a ele entender o porquê de as pessoas ignorarem ou tratarem esses servidores municipais como profissionais inferiores.

Basta lembrar o episódio ocorrido durante a cobertura jornalística do Réveillon de 2009, na qual o jornalista Boris Casoy ofendeu dois garis ao fim do telejornal: “Dois lixeiros desejando Feliz Ano Novo do alto de suas vassouras. O mais baixo da escala de trabalho”. À época, a TV Bandeirantes e o âncora foram condenados a pagar R$60 mil a Francisco Gabriel de Lima, um dos garis que apareceram na imagem.

Embora a fala do jornalista tenha rebaixado os profissionais e reforce a tese do pesquisador, os garis são trabalhadores primordiais e a interrupção de seus serviços leva as cidades ao caos. Basta lembrar o carnaval carioca de 2014: depois de terem o pedido de aumento de salário negado, os profissionais da limpeza fizeram greve, o que fez com que a cidade transbordasse de lixo em meio à folia. Foi preciso o incômodo coletivo para que a população notasse a importância de quem está à frente da limpeza pública.

A relevância do trabalho dos garis foi o que impulsionou, no início de abril, a aprovação do Projeto de Lei n° 1.011, que pôs esses trabalhadores no grupo prioritário para receber a vacina contra a covid-19. “Achei isso maravilhoso, uma vez que os nossos serviços não pararam. Nosso trabalho é de suma importância para a saúde de nossa cidade”, diz Valdenise Brandão, mais conhecida como Val, que atuou em diversos espaços na Maré.

Diferentemente do que o senso comum imagina, os garis atuam em outras frentes além da coleta domiciliar, como varrição manual e mecanizada, limpeza de hospitais e escolas, roçada, capina e raspagem, limpeza das praias, podas de árvores, coleta seletiva, remoção de resíduos de encostas e manutenção de parques, canteiros e jardins. A ação da Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb) pode-se notar, por exemplo, nos locais de descarte indevido de lixo que se transformaram em canteiros. “Atuar na Maré é um grande prazer e também um desafio. No território, eu trabalhava com revitalização de pontos críticos de acúmulo de resíduos”, conta Val, que hoje faz reviver as praças através de pintura e plantio. Segundo ela, há muita satisfação em dar vida e cores aos espaços. 

A Comlurb nasceu depois da fusão do Estado da Guanabara com o do Rio de Janeiro, com a extinção da Companhia Estadual de Limpeza Urbana (Celurb), em 1975. Criada pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, hoje ela é uma companhia vinculada à Secretaria de Conservação e Serviços Públicos (no período de sua criação, ela fazia parte da Secretaria Municipal de Obras).O Maré de Notícias, na edição 105, de outubro de 2019, trazia a história de Jaqueline Macena, cuja família é composta por garis e que conheceu seu companheiro, Jeferson dos Santos, no trabalho. Hoje, ela conta a felicidade da espera do seu segundo filho e da sua vivência de 12 anos como gari. “Eu me orgulho muito da profissão, amo o que eu faço. Só fico desanimada quando vejo moradores que descartam o lixo em qualquer lugar”, diz. Ela trabalhou por sete anos na Nova Holanda e agora faz o serviço de varrição na Praia de Ramos. Jaqueline lembra que a maior dificuldade em sua rotina são as operações policiais, que já a deixaram em situações delicadas. Contudo, isso não a faz desistir, pois seu objetivo maior é deixar a rua limpa, algo que pretende fazer por toda sua vida.

O casal Jeferson dos Santos e Jaqueline Macena no trabalho antes da pandemia – Foto: Douglas Lopes

A limpeza com um sorriso no rosto

“Viva o Gari Sorriso. Saudações pra essa galera, que rala na chuva, no sol, nas enchentes. Não tem tempo ruim, pra manter nossa cidade limpa”. Esse é o refrão da música Gari Sorriso, do cantor e compositor Bhega Silva, morador do Parque União, em homenagem a um dos profissionais da área mais conhecidos do país: Renato Luiz. Mais conhecido como Sorriso, ele se destacou em 1998 ao varrer a Marquês de Sapucaí depois do desfile de cada uma das escolas de samba do Grupo Especial, sempre com o samba nos pés. Resultado: o público não parou de aplaudir o show do gari.

Depois disso, por conta de doenças, apenas em dois anos ele não repetiu seu espetáculo no palco maior do samba. “Na madeira dá cupim e no ferro, ferrugem. Nós, garis, nos esforçamos ao máximo para realizar um bom trabalho, mas, às vezes, o corpo não suporta”, desabafa. Sorriso já participou de diversos programas de televisão, além de viajar para mais de 14 países. Ele chegou a ser um dos escolhidos para carregar a tocha olímpica nos preparativos da Rio 2016. Mas confessa: a sua maior felicidade é tomar café com os colegas garis. 

Além de varredura, o gari também exerce a tarefa de conscientização, quando visita escolas nas favelas, incluindo as da Maré. “Trabalhamos com as crianças para que elas aprendam que a rua limpa traz bem-estar. Isso chega até os pais. Um exemplo é o óleo usado, que não deve ser jogado no lixo. Na Maré, nosso amigo Bhega faz a coleta. É preciso cuidar do meio ambiente, pois a natureza cobra”, explica. Sorriso confessa que a vassoura não é vergonha e sim, uma responsabilidade.

Legenda: Renato Luiz, o Sorriso, durante o carnaval na Marquês de Sapucaí – Foto: Comlurb

Um lixo no meio do caminho

De acordo com a Comlurb, são recolhidas, diariamente, em todo o município, entre 200 mil e 250 mil toneladas de resíduos sólidos – incluídos lixo domiciliar e público, resíduos de construção civil e remoção gratuita. Na Maré, são 50 trabalhadores comunitários e 76 garis da própria companhia. Os trabalhos são realizados com apoio de oito microtratores, duas pás carregadeiras, seis caminhões compactadores e oito caminhões basculantes, entre outros equipamentos. Os moradores do território contam com oito caixas metálicas de 5m³, oito compactadoras de 15m³, duas de 30m³, além de 105 contêineres para o descarte de resíduos. O número de caçambas ainda é pouco; são comuns os equipamentos cheios de lixo e muitos resíduos espalhados chão.

Apesar de a companhia afirmar que os serviços de limpeza são diários na Maré, incluindo coleta domiciliar duas vezes ao dia, presidentes de associações reclamam de falhas em algumas partes, o que ocasiona acúmulo de resíduos em pontos da região. “A Comlurb está dentro da Maré, mas hoje faz um trabalho um pouco precário, com falta de material humano, caminhão e trator para recolher o lixo”, reclama Vilmar Gomes, mais conhecido como Magá, presidente da Associação do Rubens Vaz.

Outro problema é o tratamento diferenciado que garis comunitários vivenciam, em comparação aos concursados. “Gosto de trabalhar, não posso ficar parado. Apesar de fazer o mesmo serviço de outros garis, não tiro férias e não temos direito ao ticket refeição”, reclama Edinaldo Pereira, de 65 anos, que atua como gari comunitário há 23 anos. Ele faz a varrição da Praça do 18, parte da Rua Principal e outras ruas da Baixa do Sapateiro.

O projeto Gari Comunitário foi criado em 1995 com o objetivo de permitir que moradores das próprias favelas fossem contratados pela associação de moradores para desempenhar funções de limpeza (sem a necessidade de utilização de transporte para locomoção ao trabalho), com boa interlocução, tendo conhecimento geográfico da área e das necessidades territoriais. Além de haver uma diminuição natural de mão de obra em função de aposentadoria e óbito, a Comlurb vem reduzindo, gradativamente, a quantidade de garis comunitários, atendendo a uma decisão judicial do Ministério Público do Trabalho, de 2010, para que sejam substituídos por garis concursados da Companhia.

A Associação Círculo Laranja, fundada em 2015 por profissionais da limpeza urbana, fez críticas à Comlurb durante a pandemia. Aline Lucena, diretora jurídica da entidade, afirma que álcool em gel e máscaras foram distribuídos nas gerências apenas no início da pandemia. Outro ponto levantado é a escala de revezamento, que foi extinta. “Muitos garis do grupo de risco, assim como eu, não foram liberados do trabalho porque a empresa não aceitou os laudos apresentados, comprovando doenças crônicas. Só conseguimos assegurar esse direito por meio do setor jurídico da associação”, reclama.

A Círculo Laranja aponta que desde o início da pandemia os garis não pararam em nenhum momento de trabalhar, prestando um serviço essencial para a cidade. Mas, apesar de serem considerados essenciais, sua inclusão no grupo prioritário para vacinação contra a covid-19 aconteceu somente depois de muita luta. Aline ressalta a importância da profissão. “O gari impede pestes e pragas de proliferarem. É responsável pela manutenção da limpeza, logo cuida da saúde ambiental da cidade”, sintetiza.

Sobre as reclamações apresentadas, a Comlurb afirmou manter uma unidade na Maré dedicada integralmente ao atendimento das 16 comunidades da área. A empresa garante que todas recebem serviços diários de limpeza e coleta de resíduos. Sobre os garis comunitários, explicou que o projeto é uma parceria com as associações de moradores locais, que administra e contrata os trabalhadores, ficando ao seu cargo apenas o repasse da verba e a fiscalização. Quanto à reclamação de que estaria faltando material de proteção contra a covid-19 para os garis, a Comlurb respondeu que distribui máscaras de proteção individual laváveis, disponibilizando ainda água, sabão, produtos de limpeza e de higiene, além de recipientes com álcool em gel em todas as gerências. A companhia municipal de limpeza assegurou que dispensa do trabalho todos aqueles com mais de 60 anos e que, antes da fase de flexibilização, determinou o escalonamento de horário de chegada e saída nas gerências, a redução da jornada de trabalho e o regime de escalas em dias alternados, dependendo da área de atuação e demanda do local de lotação.

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Hélio Euclides

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