O que você precisa saber sobre a vacinação no Brasil

O que você precisa saber sobre a vacinação no Brasil

Duas semanas depois do início da vacinação, cenário para imunização é de incertezas

Por Edu Carvalho e Thaís Cavalcante em 29/01/2021 às 10h

Atualizada às 14h15

Editado por Edu Carvalho

Com o início tardio de um plano para combater a pandemia do novo coronavírus, o Brasil desponta como um dos países que mais negligenciaram a campanha de imunização e os protocolos de saúde. Ao longo dos últimos meses, representantes políticos deslegitimaram não só o vírus, como a única solução possível para frear a disseminação e o contágio deste inimigo invisível: a vacina. Na figura do presidente da república Jair Bolsonaro (sem partido) e com aval do Ministério da Saúde e do encarregado da Pasta Eduardo Pazuello, o incentivo para o uso de medicamentos com ineficácia comprovada, apostando em atitudes que confundem a população.

O retrato da crise cada vez mais agravada é a capital amazonense, que em seu pior momento, vê o sistema público de saúde colapsar pela falta de leitos e de oxigênio. E mais: uma nova cepa, já presente em 91% das amostras de vírus sequenciadas no Amazonas, e que pode ter sabotado a imunidade coletiva de Covid-19 que existia na cidade.

Entre mandos e desmandos, já contabilizamos mais de nove milhões de casos confirmados e 221 mil mortes desde o começo da pandemia.

Com liberação emergencial para duas vacinas, como está o panorama em relação ao processo de vacinação no país? Como têm se organizado o governo em relação às doses? O Maré de Notícias Online traz nesta matéria especial algumas das informações mais importantes para você saber nesse momento sobre o assunto.

Apesar da ‘guerra’, temos vacinas

Em meio a politização acerca das vacinas pelo governo federal, a vacinação contra o coronavírus começou no Brasil em 17 de janeiro, no mesmo dia em que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa, aprovou o uso emergencial da CoronaVac e da vacina de Oxford. A campanha de imunização foi iniciada com seis milhões de doses da CoronaVac, distribuídas proporcionalmente para os 26 estados e o Distrito Federal.

No dia 22 de janeiro, dois milhões de doses prontas da vacina de Oxford chegaram ao Brasil vindos do Instituto Serum, da Índia. No sábado, 23, as doses começaram a ser distribuídas pelo país. Também na sexta, a Anvisa liberou o uso emergencial de mais 4,1 milhões de dose da vacina CoronaVac, produzida pelo Instituto Butantan em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac.

Segundo a Fundação Oswaldo Cruz e o Instituto Butantan, o Brasil deverá ter, já em fevereiro, mais 15 milhões de doses das vacinas aprovadas pela Anvisa contra a Covid-19. No último dia 25, o presidente Jair Bolsonaro fez um anúncio nas redes sociais de  que 5.400 litros do Ingrediente Farmacêutico Ativo, o IFA, da CoronaVac chegarão ao Brasil nos próximos dias. Com este material, o Butantan consegue fabricar 5 milhões de doses em 20 dias.

Nos últimos dias, um imbróglio permeia a discussão sobre a vacina produzida pelo instituto paulista. O diretor do Butantan, Dimas Covas, afirmou na última quarta-feira, 27, que o governo federal ainda não fez uma solicitação formal para o lote extra de 54 milhões de doses que estão previstas no contrato firmado pelo Ministério da Saúde com a instituição. Covas afirma que pode priorizar a produção da vacina para a exportação, caso o pedido não seja feito em breve. Ontem, 28, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), determinou ao Instituto Butantan que priorize o fornecimento para estados e municípios brasileiros caso o Ministério da Saúde não confirme a compra dos imunizantes adicionais da CoronaVac.

Apesar da pressão, a Pasta da Saúde informou que tem até maio para decidir sobre a compra. No primeiro lote, o Butantan vendeu 46 milhões de doses ao governo federal.

A vacina CoronaVac, produzida pelo Instituto Butantan em parceria com o laboratório Sinovac BiotechImagem: Aloisio Mauricio/ESTADÃO CONTEÚDO

Demora na compra de doses por ‘’frustração’’

Nós já poderíamos ter começado a vacinação antes de janeiro. Em comunicado, a farmacêutica Pfizer disse ter apresentado em agosto de 2020, uma carta de intenção ao governo brasileiro para venda das vacinas. Na primeira proposta para aquisição de imunizantes, a entrega das doses estava prevista para dezembro. 

O Ministério da Saúde informou que o número de doses contra a covid-19 oferecidas pela farmacêutica seria insuficiente para atender a demanda do país. A previsão inicial do laboratório, segundo a Pasta, incluía dois primeiros lotes de 500 mil doses e um terceiro lote de 1 milhão de doses, totalizando 2 milhões de doses.

“Para o Brasil, causaria frustração em todos os brasileiros, pois teríamos, com poucas doses, que escolher, num país continental com mais de 212 milhões de habitantes, quem seriam os eleitos a receberem a vacina”, destacou o ministério, por meio de nota. O governo brasileiro cita ainda cláusulas abusivas estabelecidas pela farmacêutica.

A Pfizer garante que os termos do acordo oferecido ao Brasil são os mesmos de contratos com outros países, como Estados Unidos, Japão, Israel e Reino Unido. E de que continua com o processo regulatório de submissão de sua vacina junto à Anvisa.

Dose da vacina da Pfizer/BioNTech.
Reprodução: AFP

Para todo mal, há cura

Até o balanço de ontem, 28, feito às 22h, foram vacinadas mais de 82,48 milhões de pessoas no mundo, de acordo com o panorama divulgado pela Our World Data. No Brasil, 22 estados e o Distrito Federal vacinaram 1.509.826 pessoas, segundo dados divulgados pelas secretarias estaduais de saúde até as 20h. A informação é resultado de uma nova parceria do consórcio de veículos de imprensa, formado por G1, O Globo, Extra, O Estadão de S.Paulo, Folha de S.Paulo e UOL.

A população vacinada no Município do Rio de Janeiro está sendo contabilizada em tempo real pelo portal online Vacinômetro que, na quinta (28) registrava mais de 115 mil pessoas vacinadas – balanço feito às 18h. Outros estados do país também aderiram ao portal, que informa o número e não expõe nenhum dado sobre onde, quanto ou quem está neste mapeamento.

Começou a nova fase de vacinação na cidade carioca nesta quarta-feira (27) e pretende expandir a imunização de profissionais de saúde com mais de 60 anos. Os 236 centros municipais de saúde e clínicas da família de toda a cidade são os locais a serem procurados por esses profissionais, até 3 de fevereiro. Eles devem estar devidamente identificados e com a comprovação necessária.

A prefeitura do Rio também já divulgou que idosos com mais de 80 anos poderão ser vacinados a partir do dia 1º de fevereiro. O calendário você confere aqui. No Plano de Vacinação carioca também há orientações para que a população prefira o horário da tarde para se vacinar, leve a caderneta de vacinação se tiver, dê preferência para a unidade de saúde que frequenta e é necessário guardar o comprovante da primeira dose para tomar a segunda. 

Estados preparam informações sobre quando devem vacinar

Em Mato Grosso do Sul, o Plano Estadual de Vacinação está seguindo o calendário orientado pelo Ministério da Saúde. Foram recebidas mais de 187 mil vacinas, entre CoronaVac e  AstraZeneca/Oxford. Mas o processo segue bem lento, comparado com outros estados do país. Até o dia 27/01, pouco mais de 16 mil pessoas foram imunizadas. O intervalo para a aplicação entre a primeira e a segunda dose é 14 e 28 dias. 

No Paraná, o cenário é um pouco mais otimista: já são quase 100 mil pessoas vacinadas e mais de 352 mil doses disponíveis para a população.

Em Recife, com a chegada das vacinas de Oxford, mais cidadãos puderam receber o imunizante. Agora, passam a se vacinar idosos com mais de 85 anos, além de profissionais de saúde na linha de frente. O sistema utilizado para organização é o site Conecta Recife, que também tem aplicativo no Google Play e App Store. Nele, o cidadão pode fazer o agendamento nos postos de vacinação específicos. 

Reprodução: governo estadual de Recife


Já o estado de São Paulo criou o site #VacinaJá, onde a população pode preencher os dados pessoais e aguardar o momento exato em que o grupo que lhe cabe será chamado.

No início da tarde dessa sexta-feira, 29, o governo estadual informou que idosos acima de 90 anos serão vacinados a partir do dia 8 de fevereiro. Já os que estão na faixa etária entre 85 e 89 começarão a ser imunizados no dia 15 do mesmo mês.

“Com o novo lote de vacinas, iniciaremos a partir do dia 8 de fevereiro a vacinação de 206 mil idosos acima de 90 anos de idade. E a partir do dia 15 de fevereiro idosos de 85 a 89 anos, no total de 515 mil pessoas. Mais de meio milhão de pessoas serão vacinadas a partir de 8 de fevereiro”, afirmou o governador João Doria (PSDB).

Interface do site Vacina Já, desenvolvido pelo governo de São Paulo para acelerar vacinação no Estado. Divulgação

No Amazonas, a vacinação estava suspensa por ordem da Justiça Federal. Mas hoje, 29, a capital Manaus teve liberação para começar esta etapa da imunização, para qual foi destinada 50.398 doses da vacina AstraZeneca/Oxford, que será aplicada em duas doses. O número é suficiente para cobrir 100% dos idosos com 80 anos e mais, 100% dos idosos com idade entre 75 e 79 anos, e 37% dos idosos entre 70 e 74 anos de idade, no município.

Como, para este último grupo (70-74 anos), o número de doses foi limitado pelo Ministério da Saúde, o critério para vacinação será o da condição física dos usuários.

Neste primeiro momento, os idosos entre 70 e 74 anos que poderão receber a vacina serão os acamados, os portadores de Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), Insuficiência Renal Crônica, diabetes (insulina dependente) e os que têm obesidade (IMC >40), além dos transplantados e imunossuprimidos. Nestes casos, os idosos precisam apresentar laudo, receituário, atestado médico ou outro documento que ateste a sua condição.

Aposta do governo brasileiro para monitorar vacinação é o ConecteSUS

Uma caderneta digital, disponível no seu celular, pode ajudar a identificar quando deve se vacinar pela primeira vez e a voltar ao posto para uma segunda dose. Para isso, a aposta do governo federal e do Ministério da Saúde é o Conecte SUS. Ele registra toda a trajetória de quem busca atendimento nas unidades do Sistema Único de Saúde e disponibiliza, entre outras ferramentas, a Carteira Nacional Digital de Vacinação.

A ferramenta já está disponível gratuitamente nas lojas de aplicativos – Google Play e App Stores. Depois de baixar, basta informar o número do Cartão Nacional de Saúde – também chamado de Cartão SUS – ou do CPF. Se você já tiver cadastro nos sites do governo federal, com o CPF, provavelmente poderá usar a mesma senha. Se não tiver, é só preencher o formulário. 

Até o momento, não há no site, tampouco no aplicativo, nenhuma atualização sobre as vacinas contra o coronavírus.

Reprodução: Ministério da Saúde

Pelo mundo, a organização frente às campanhas de vacinação acontece de maneira ordenada. Em Portugal, que começou a vacinar no final de dezembro, o governo envia avisos, por SMS. “COVID19: Vacinação começa Aguarde contacto do SNS”, diz a mensagem, citando o Serviço Nacional de Saúde. No Reino Unido, primeira nação a iniciar a imunização, os alertas são disparados por e-mail de que. As vacinas utilizadas tanto em Portugal quanto no Reino Unido são as das farmacêuticas Pfizer e BioNtech. 

Quais são as diferenças entre as vacinas CoronaVac e Oxford?

No Brasil, temos duas vacinas sendo possibilitadas à população: a CoronaVac, desenvolvida pelo laboratório chinês SinoVac em parceria com o Instituto Butantan do Brasil, e a vacina Oxford/AstraZeneca, com compartilhamento através da Fundação Oswaldo Cruz. 

A segunda dose da CoronaVac precisa ser tomada num intervalo de 14 a 28 dias; e a segunda dose da vacina de Oxford, em 12 semanas. Com o número ainda bem reduzido de vacinas no Brasil, os médicos alertam sobre a importância de garantir a aplicação da segunda dose no prazo certo para uma imunização completa.

Como neste momento a primeira fase da campanha as vacinas são aplicadas in loco, o controle das datas para receber a segunda dose é mais fácil de administrar, mas isso deve mudar quando tivermos disponíveis um maior número de doses e mais grupos puderem ser imunizados. Será necessário que o próprio indivíduo procure serviço, no posto de vacinação mais próximo. Caso atrase ou esqueça de voltar, essa dose será aplicada do mesmo jeito, porque está contabilizada no cálculo.

Glaucia Paula é técnica de laboratório e foi vacinada contra a covid-19.
Foto: Arquivo pessoal.

Tomar vacina, um ato pela saúde do outro

Glaucia Paula, técnica de laboratório em duas unidades de saúde e nascida no Parque União, foi vacinada na semana em que a CoronaVac chegou à cidade do Rio de Janeiro. “No momento da vacina eu senti alívio e esperança. Alívio, pois mesmo tendo contraído a doença em maio e ficado bem e sem sequelas, ainda temo pelos meus familiares que são do grupo de risco”.

Seu dia a dia de trabalho era uma realidade vivida em todo o país. “Há um desgaste emocional muito grande em estar à frente na assistência. Desde o início da pandemia, os plantões foram caóticos: no início, pela falta de equipamentos de proteção individual, depois a questão da higienização e da paramentação, que exigem cuidado e fazem com que os processos fiquem mais lentos. Também foi exaustivo lidar com o afastamento de colegas contaminados”, afirma.

A notícia de que foi uma das escolhidas para ser vacinada chegou em uma lista por e-mail e, priorizaram aqueles que tivessem um contato mais direto com o paciente. É o caso de Glaucia, que faz coletas de sangue também em pacientes no CTI COVID-19. A organização foi feita pela equipe de enfermagem e durou cerca de 15 minutos, sem aglomeração. Nem todos do laboratório foram vacinados, mas foi prometido que, conforme mais doses forem adquiridas, todos serão beneficiados.

No e-mail, além do nome dos beneficiados, ela conta que também foi informada qual era a vacina e que seria imunizada com a primeira dose e em breve, com a segunda. “Pediram para que levássemos o cartão de vacinação do adulto e o crachá da instituição. Na hora da vacinação, passamos por uma avaliação sobre o estado de saúde e fomos orientados sobre a importância de levar o cartão ou comprovante de vacinação para segunda dose, pois é necessário para a conferência do lote”.  

Sobre o movimento anti-vacina, ela reforça que tomar vacina é um ato sanitário e um pacto social, não uma atitude individual – é pelo bem de toda a população. “A saúde é movida por dados científicos, por trás dessa vacinação existem profissionais muito qualificados e gabaritados que pesquisaram e estudaram para que hoje tenhamos esperança”.

De acordo com informativo publicado pela Associação Médica Brasileira e a Sociedade Brasileira de Infectologia, a vacinação e o tratamento farmacológico preventivo, as fake news continuam como uma grande inimiga neste período em que a vacinação chega aos estados brasileiros. “A desinformação dos negacionistas que são contra as vacinas e contra as medidas preventivas cientificamente comprovadas só pioram a devastadora situação da pandemia em nosso país. As principais sociedades médicas e organismos internacionais de saúde pública não recomendam o tratamento preventivo, inclusive a ANVISA”.

Além de alertar e apresentar a situação atual, as entidades também mostraram orgulho e apreço pela ciência. “Parabenizamos todos os pesquisadores que participam dos estudos clínicos das vacinas contra COVID-19, o Instituto Butantan e a Fiocruz, instituições públicas que orgulham os brasileiros”.

Edu Carvalho

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