Pandemia acentua dificuldades para mulheres negras da Maré

Nova Holanda, umas das 16 favelas da Maré - Foto: Myllenne Fortunato

Coronavírus atinge duramente alternativas de emprego e renda, e só muita mobilização consegue amenizar o problema

Por Myllenne Fortunato 05/10/2020 às 18h15

Esse texto é uma iniciativa #Colabora nessa Maré de Notícias, parceria entre o Projeto #Colabora e o Maré de Notícias.

As medidas determinadas pelas autoridades para tentar conter a pandemia do coronavírus no Brasil provocaram impactos dramáticos em toda a sociedade – mas, para quem vive nas favelas e periferias foi ainda pior. Muitas pessoas perderam empregos, empresas fecharam as portas, trabalhadoras domésticas ficaram desamparados, ambulantes viram seus clientes desaparecerem, microempreendedores foram privados de suas fontes de renda. O desemprego atingiu muitas famílias, porém chegou pesado, especialmente, às mais pobres. 

O grupo mais afetado foi o que mais sofre no Brasil, desde (quase) sempre): as mulheres negras, que representam 28% da população . Elas têm 50% mais probabilidade de ficarem desempregadas, na comparação com outros grupos, segundo o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). A advogada, professora universitária e gestora acadêmica Tatiane Duarte, 45 anos, explica que o isolamento social não acontece da mesma forma para todos. “No trabalho doméstico, muitos foram dispensados ou obrigados a ficar permanentemente no emprego, confinados com os patrões”, observa. 

A população negra, historicamente, é a mais afetada pelo desemprego – cenário que se agrava numa crise profunda como a atual. “Aí, a gente percebe que, além de o problema ser maior numa reação em cadeia, essas mulheres vão impactar suas famílias, na quais elas normalmente são provedoras”, atesta Tatiane.

Mulheres negras têm maior probabilidade ao desemprego em meio a Pandemia. Foto: Myllenne Fortunato

A ambulante Maria Luiza da Silva Neta, 27 anos, mãe de Malluh, 11, se viu sem chão, ao saber que não teria mais como sustentar a filha após o fechamento do Camelódromo no Centro do Rio, onde trabalhar. “Fiz investimento para as vendas no Carnaval, mas foi o último momento em que consegui alguma coisa”, conta a moradora da Rubens Vaz, angustiada com despesas como o aluguel da casa.

O jeito foi tentar outras formas de trabalho e, a partir da sugestão de uma amiga, Maria Luiza montou um bazar de roupas infantis em casa, com transações online. “Em uma noite, montei o negócio e pedi a opinião de algumas freguesas. Não esperava retorno tão grande”, admira-se a, agora, dona do bazar da Malluh.

A história de Maria Luiza serve de exceção para confirmar uma regra triste. Muitas trabalhadoras não conseguiram completar a transição e precisam de apoio. Diante da demanda crescente, ONG´s e coletivos até ultrapassam seu escopo, inaugurando outras atividades. Muitas foram as que fizeram doações de alimentos e produtos de higiene para os moradores da Maré. 

Também moradora da Rubem Vaz, a confeiteira Camila Marques da Silva, 29 anos, recebeu cesta básica da Frente de Mobilização. “Ajudou muito, porque com a pandemia, as encomendas de bolo praticamente zeraram”, conta ela. Uma guinada cruel na vida da confeiteira que nunca ficou sem trabalho e nos fins de semana pré-pandemia, fazia no mínimo 10 bolos por encomenda.

Por histórias semelhantes à de Camila se explica o valor de iniciativas como a Redes da Maré, que, ainda no início da pandemia, criou a Campanha Maré Diz Não ao Coronavírus com diversas frentes de frentes de trabalho. Uma delas foi o projeto Tecendo Cuidados e Máscaras, que contratou costureiras da comunidade. 

Uandergina dos Santos, costureira do projeto Tecendo máscaras e cuidados

Uandergina dos Santos Silva, a Gina, foi uma das 54 profissionais recrutadas para o trabalho. Moradora da Nova Holanda há 57 anos, aprendeu a costurar com a mãe e criou suas três filhas sustentada pelo ofício. Como complemento da aposentadoria, prestava serviços para uma fábrica na Vila Cosmos, Zona Oeste do Rio, mas, hipertensa e diabética, precisou se desligar para cumprir o isolamento social. “Quando começou a onda da covid-19 em outros países, fiquei apavorada. Em março, comecei a quarentena e parei de trabalhar. Até que minha filha ficou sabendo do grupo de costureiras que estavam formando e me indicou. Foi a solução”, festeja.

Entre iniciativas individuais, auxílios variados e mobilizações comunitárias, as mulheres da Maré tentam virar o jogo imposto pelo Brasil, que o coronavírus só fez agravar. Ela vão vencer.

Myllenne Fortunato é formada em Jornalismo pela Faculdade Pinheiro Guimarães. Cria da Maré, mora desde que nasceu no Parque União.

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