Semana dos Direitos Humanos da Maré tem diálogo com crianças e adolescentes

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2º Congresso Falando sobre Segurança Pública com crianças e adolescentes da Maré tem diálogo e apresentação de propostas de crianças e adolescentes mareenses

“Ontem teve operação e no meu bloco um homem morreu. Era amigo do meu tio. Muita gente assustada, porque os poliça entraram no meu bloco.” Essa foi uma carta de Walace, aluno do Espaço de Desenvolvimento Infantil (EDI) Professor Moacyr de Góes, que fica na Nova Holanda. Essa foi uma das atividades apresentadas no II Congresso Falando sobre Segurança Pública com Crianças e Adolescentes da Maré, que faz parte da Semana dos Direitos Humanos.

As atividades foram realizadas na recém reinaugurada Areninha Cultural Herbert Vianna, que virou um espaço de exposição de trabalhos, de integração entre crianças e adolescentes de diferentes áreas do conjunto de favelas, de troca de conhecimentos e experiências, de atividades culturais, de expressão política e de exercício da cidadania. O objetivo do encontro foi discutir segurança pública com um foco especial nas perspectivas das crianças e adolescentes da Maré.

Além das cartas que representavam os trabalhos das crianças na primeira infância, os alunos do EDI Moacyr de Góes ainda apresentaram uma maquete e uma árvore de direitos que pedia balanço, humor, doces, paz, música, pula-pula, pipoca, escorrega, bola, piscina, pique, árvore, sorvete e caveirão do bem. “Elas pedem mais políticas públicas na primeira infância. Elas desde cedo estão construindo esse olhar sobre a política. É muito bom ver a particularidade deles, da visão dos problemas do território e do pedido de direito de brincar”, comenta Ingrid White, diretora, que levou crianças de 5 a 6 anos, da pré-escola II. 

A segunda parte do congresso contou com apresentação dos trabalhos das crianças e adolescentes. “Muito bom elas terem a consciência que os políticos precisam cuidar da Maré”, conta Solange dos Santos, moradora do Parque Maré, que no dia anterior também participou da Caminhada Maré a Céu Aberto. Josivânia da Silva, moradora da Nova Holanda também participou do evento. “Importante elas mostrarem o que vivem diariamente na favela, se expressando e colocando para fora, como em um dia de operação”, manifesta. 

A professora Adelaide Resende, tecedora da Redes da Maré, destacou a importância de ouvirmos mais as crianças. “Não podemos tirar o direito de fala delas, de mostrar suas ideias e que incomodam com a violência. Elas falam da própria vida e da ausência do Estado. É preciso entender que são crianças, adolescentes e jovens que tem potência”, diz. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) no Artigo 3º relata que a criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral. Assegurando-se todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade. 

Mais direito e menos preconceito

Estudantes do Ciep Samora Machel, do Preparatório Redes da Maré, com adolescentes da Nova Holanda e Vila dos Pinheiros, somado a alunos do Colégio Estadual Professor João Borges de Moraes, e das escolas municipais Professor Josué de Castro e Olimpíadas Rio 2016, participaram apresentando trabalhos e reflexões. “Muito legal dar a palavra às crianças e mostrar que querem um lugar seguro para morar e estudar”, reflete Andrew Felipe Olegário, de 14 anos, aluno da EM Olimpíadas Rio 2016. 

As crianças do Skate da Areninha mostraram que não fazem manobras apenas na prancha de rodinhas, mas também com a caneta. Eles escreveram o livro Maré que Queremos, que fala dos anseios, como um melhor tratamento da favela por meio do poder público. A tarde contou ainda com crianças do Clube de Leitura, da Biblioteca Popular Escritor Lima Barreto. Elas escreveram um livro só para o Congresso, que traz os direitos, como se expressar, brincar, estudar e o de ir e vir. “Pesquisamos sobre segurança pública, depois colocamos no papel os nossos direitos e fizemos cartazes sobre o que sentimos em dia de operação policial”, resume Francisco Guilherme, de 12 anos, morador do Parque União.Ao final ocorreu o cortejo pelo direito à segurança pública na Maré em torno da areninha, com direito a faixa, cartazes e crianças do projeto Gigantes da Penha, que se apresentaram com pernas de pau. Todas as crianças cantavam a música criada pelo projeto Nenhum a Menos, intitulada Basta de Violência. Camila Bastos, pesquisadora e coordenadora do projeto De Olho na Maré avalia como positivo o encontro. “Demos continuidade ao trabalho da edição do ano passado, com participação de escolas e projetos sociais. O objetivo é que elas pensem segurança pública, se expressando e ocupando o território para pedir um basta da violência”, conclui.

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