Espaços para plantar e colher na Maré

Horta Escola Olimpíadas 2016 com o professor André Luiz Nascimento

Espaços para plantar e colher na Maré

Três iniciativas mostram a importância dos legumes e verduras

Por: Hélio Euclides Editado por: Jéssica Pires

Hipertensão, diabetes, obesidade e anemia são algumas das doenças que podem ter quadros regredidos com atividade física somada ao consumo de alimentos saudáveis. Uma boa alimentação com nutrientes é fundamental para promover o bem-estar e a qualidade de vida. Especialistas indicam que uma alimentação bem estruturada deve conter verduras e legumes. Pensando no incentivo desses alimentos surgiu uma horta comunitária em Marcílio Dias e outras na Nova Holanda. Uma tem o trabalho realizado dentro de escola, e a outra em uma instituição, que já está produzindo as próprias mudas.

Começar um projeto de vida sempre parece difícil, imagina dar continuidade a algo que já foi iniciado. O Maré de Notícias mostrou o trabalho inicial realizado pelo Instituto Vida Real de implementação de uma horta com 12 canteiros, cada um com cerca de oito metros de comprimento e 1,20m de largura. Eram os primeiros passos de um plantio de mudas, idealizado por Sebastião Antônio, conhecido como Tião, coordenador do instituto.

Dez meses depois, após diversas colheitas que ajudaram cerca de 150 famílias, a horta parte para uma segunda fase. “Antes adquirimos mudas, nessa etapa vamos dar início com as sementes. Depois de 15 dias separar as mudas, que se multiplicarão. Isso é uma aula para os alunos e alguns responsáveis. A germinação é um aprendizado”, lembra. Além das verduras, a horta também faz o plantio de quiabo, pimenta de cheiro, alface, abóbora e pimentão. 

Apesar dessas mudanças na hora de plantar, o objetivo da horta será o mesmo do início: continuar transformando um espaço que estava vazio, ao lado da Clínica da Família Jeremias Moraes da Silva, em um local de plena produção para os moradores. “Não é só plantar, é preciso cuidar, mantendo a horta sempre limpa de inimigos das hortaliças, como as lagartas. Para isso não são usados agrotóxicos e sim remédios caseiros. Essa dedicação é uma higiene mental”, avalia. Tião fica feliz a cada momento que vê os canteiros lotados de hortaliças e espera que esse sentimento se multiplique, para que surjam mais hortas na Maré. 

Para conhecer a horta ou fazer doação, os interessados podem entrar em contato com a instituição pelo: Facebook @vidarealmare e pelo Instagram @institutovidareal.

A horta no combate a vulnerabilidade

Em outubro, Walmyr Junior, professor, agente social de transformação e militante do Movimento Negro Unificado, já dava spoiler sobre a Horta Comunitária/Escola Maria Angu. No mês de julho, a horta que era um sonho virou realidade com cinco canteiros em produção, sendo dois de oito metros de comprimentos, um de 13 metros, um de cinco metros e um de seis metros. Todos com um metro de largura. 

Durante a pandemia surgiu em Junior o interesse por plantas, algo doméstico. Começou o processo de plantar temperos, como pimenta, manjericão e orégano. Daí percebeu que era possível ter uma horta em casa. “Comecei a pensar nisso e surgiu o desejo de transformar as casas da favela em território de produção de alimento. Compartilhei a ideia com uma amiga e começamos a trocar sugestões e veio a estratégia de como pautar a construção de uma horta comunitária. Tudo isso pensando na lógica da justiça socioambiental e da segurança alimentar”, conta. 

Para sair do papel, foi necessária uma articulação transdisciplinar com a Pontífice Universidade Católica (PUC-Rio), por meio de um financiamento. Foi por meio de uma parceria com o Departamento de Teologia que a horta nasceu. Para isso, ele escreveu um projeto para disputar um edital interno do Instituto de Estudos Avançados em Humanidade. “Fazer uma horta é caro. Por isso, no contexto da pandemia, submetemos o Programa de Segurança Alimentar Horta Escola Maria Angu, para participar de um processo seletivo e recebemos financiamento para a sua implementação. A partir dessas iniciativas conseguimos fomento para a construção dos canteiros, compra de materiais, ferramentas, mudas, terra e adubo. Agora vencemos um segundo edital que incentiva a continuidade e a expansão”, diz. Com esse segundo passo será possível a criação de canteiros dentro da Escola Municipal Cantor e Compositor Gonzaguinha. 

Eles já conseguiram colher berinjela, beterraba, jiló, quiabo, agrião, couve, repolho, rúcula, salsa, cebolinha e coentro. Agora o plantio é de abóbora e frutas, como bananeira, com o objetivo de garantir a complementação da alimentação. “A alimentação na favela é pautada em algo inseguro, nutrientes escassos, com muito industrializado, enlatado, processado e com misturas químicas. Não há garantia para uma nutrição saudável e para o desenvolvimento humano na favela. Tanto os adultos quanto as crianças vivem uma insegurança alimentar com ausência de verduras e legumes, que são alimentos fundamentais para o fornecimento de nutrientes para o nosso corpo”, comenta. 

A equipe da horta é formada por 50 voluntários, que incluem moradores, estudantes da PUC-Rio, ativistas climáticos, membros de coletivos e instituições. Soma-se a eles um grupo de gestão com 16 pessoas distribuídas em cinco eixos de trabalho: educação, território, comunicação, pesquisa e recursos. A horta se posiciona numa construção coletiva que realiza ações como as mais recentes, que foram dois mutirões para limpar o terreno para um novo canteiro. “São passos pequenos, mas queremos a transformação do território com a pretensão de se tornar referência comunitária naquilo que tange a segurança alimentar. É uma alegria ver a celebração das crianças quando recebem o alimento após a colheita”, revela.

“Percebemos que há uma prática do racismo ambiental no território periférico, onde a favela é uma zona de sacrifício escolhida pelo poder público para poder ser sacrificada, conseguindo estrutura política. Diante dessa realidade nasceu o desejo de construir uma horta agroecológica e urbana dentro do contexto da favela de Marcílio Dias”, conta. Para a liderança, o território precisa de uma atenção e a horta comunitária pode favorecer a interlocução com os moradores, para que percebam que é possível plantar na favela e colher alimentos orgânicos e nutritivos, combatendo a desertificação alimentar na favela. 

A oportunidade de ver um alimento produzido no próprio território e garantir uma relação com o morador com o que pode ser consumido, para o professor, é uma nova narrativa de opção de alimentação. “É a possibilidade de crianças, que fazem parte do projeto, de serem agentes de transformação socioambiental num futuro próximo. A ideia é garantir esse processo de educação ambiental nas escolas e creches comunitárias para que a gente possa estabelecer um novo ciclo de pessoas comprometidas com o meio ambiente”, conclui. 

Para conhecer e ajudar o projeto, é só acessar: Instagram @hortacomunitariamariaangu.

Plantar vira uma escola

“Não basta saber ler que ‘Eva viu a uva’. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho”, esse é um dos pensamentos do professor, pedagogo, filósofo e patrono da educação brasileira, Paulo Freire. Ao se plantar e colher para o próprio consumo, rompe-se com a lógica de exploração do agronegócio. Quando essa iniciativa nasce dentro da escola, vira um aprendizado para as crianças. Isso é o que vem sendo realizado na Escola Municipal Ginásio Carioca Olimpíadas Rio 2016, que fica no Campus Maré I, na Nova Holanda. 

A horta do Ginásio Olimpíadas nasce logo após a inauguração, em 2016, como uma disciplina eletiva da escola, de idealização do professor Alexandre Fonseca, com apoio do professor Jonatan Jesus. A partir daí houve uma boa aceitação pela comunidade escolar e acabou se tornando um projeto da escola. Desta forma, todo semestre foi necessário disponibilizar esta disciplina eletiva para a escolha dos alunos. 

Um ano depois, ingressou no time o professor André Luiz Nascimento. Em 2019, André assume a liderança da eletiva, com apoio da equipe gestora da escola, formada pela diretora Ana Flávia Veras, pelo diretor adjunto Alex Silva Souza, do apoio à direção de Silvia Alessandra Ribeiro e Vanessa Albuquerque, além da colaboração de Rosana Moraes, da sala de recursos da escola e Angélica Carvalho, do setor de extensividades da Secretaria Municipal de Educação.

Na questão de mudas, a horta recebeu doações dos professores Silvia Alessandra Ribeiro, Mário Fernando Calheiros e Desluci Castro, que cederam espécies arbóreas. Outra doação importante veio de Beatriz Araújo, diretora do Horto da Prefeitura da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que cedeu 10 mudas de espécies arbóreas de Mata Atlântica, um bioma local para o entorno do espaço escolar. O resultado será futuramente mais sombra, um local mais fresco e com uma qualidade do ar melhor, em especial ao considerar o microclima do ambiente escolar. “Não posso esquecer de falar da dona Maricelia Maria Pereira, uma mãe de ex-aluno que sempre regou a horta durante os finais de semana e feriados de 2022, contribuindo bastante para o crescimento de todas as espécies de hortaliças”, lembra.

O objetivo da disciplina foi criar um sentimento de pertencimento dos alunos ao local em que vivem, de forma que pudessem valorizar e cuidar tanto do espaço escolar quanto do ambiente da própria horta. Depois, proporcionar conhecimentos para que o aluno pudesse criar sua própria horta em espaço urbano. O terceiro ponto é ensinar que é preciso trabalhar para conseguir o objetivo de uma agricultura urbana. 

Antes da pandemia, o espaço da horta era escondido, próximo a caixa d’água da escola, com dois dois canteiros. Para melhorar o desenvolvimento, a direção cedeu este ano um espaço na frente da unidade escolar. “Neste espaço, temos mais visibilidade. Não é muito grande, mas conseguimos plantar e colher várias hortaliças no primeiro semestre deste ano. Um bom exemplo é que conseguimos fazer no evento de culminância das eletivas escolares uma salada na hora do almoço para toda a escola”, conta.

O professor conta que avalia de forma positiva a contribuição na formação dos estudantes. E algo que será importante para a vida deles. “Ainda conseguimos perceber que outras pessoas se inspiram no projeto e começam a fazer sua própria horta urbana. Também fico feliz em perceber que até os moradores da comunidade apoiam e parabenizam o trabalho”, finaliza.

Apesar do sucesso, Nascimento conta que infelizmente a disciplina eletiva neste formato com dia e horário específico e com a possibilidade de escolha por qualquer aluno da escola não será mais possível. Ocorreu uma reestruturação na grade horária para que a escola ficasse padronizada como todas as outras da rede municipal. Mesmo assim, com menos tempo e ser em outro formato, ele vai fazer o possível para manter a horta com o apoio dos voluntários que acreditam na importância do plantio das hortaliças na Maré.  Para conhecer o trabalho da escola e incentivar a continuidade da horta é só visitar virtualmente: Facebook @ginasioolimpiadas2016 e Instagram @e.m.olimpiadasrio2016.

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Hélio Euclides

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