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EcoClima completa um ano de mobilização socioambiental na Maré

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O projeto visa diminuir os efeitos das mudanças climáticas em quatro favelas do conjunto e construir um futuro sustentável

Louise Freire

O EcoClima (Núcleo de Economia Circular e Clima na Maré) completou um ano de mobilização territorial. A iniciativa da Redes da Maré, dentro do eixo Direitos Urbanos e Socioambientais (Dusa), acontece a partir da parceria com a Petrobras e com o departamento de engenharia ambiental da Universidade Federal do Rio de Janeiro (EA-UFRJ).

O projeto foi idealizado com objetivo de contribuir para a diminuição dos impactos da crise ambiental e criar um espaço integrado de economia circular em quatro favelas que compõem o conjunto da Maré: Parque União, Parque Rubens Vaz, Nova Holanda e Parque Maré.

Apesar dos efeitos negativos das mudanças climáticas atingirem todo o planeta, eles são mais sentidos e causam mais estragos para as populações pobres, pretas e que habitam as periferias urbanas. Após as destruições causadas por enchentes ou desabamentos, são também essas populações que demoram mais tempo para se recuperar ou serem reparadas pelo Estado.

Por isso, além do direito à educação, saúde, segurança pública, também é importante pautar o direito ao meio ambiente nas favelas, que está relacionado ao esgotamento sanitário, a qualidade do ar, o abastecimento de água, a drenagem das chuvas e a gestão adequada dos resíduos sólidos.

EcoClima com soluções em conjunto

De acordo com o coordenador do EcoClima, Rian Queiroz, a principal preocupação no primeiro ano foi estabelecer um diálogo significativo entre os jovens da Maré e as ferramentas, estratégias e métodos necessários para enfrentar os impactos da crise climática. Assim, buscando soluções em conjunto.

“Este processo não apenas nos permitiu compreender a concretude dos problemas ambientais, mas também destacou como esses problemas afetam o cotidiano da favela. A partir dessa perspectiva, surgiram oportunidades para propor alternativas eficazes que fossem genuinamente adaptadas à realidade local”, explica Queiroz

Uma ação importante do projeto foi a pesquisa: Ecoclima – Diagnóstico sobre tecnologias ambientais, futuro e mudanças climáticas na Maré, realizada por meio de entrevista com moradores. O estudo pretende entender a percepção dos mareenses sobre a situação socioambiental da região para reivindicar políticas públicas específicas e contextualizadas, que abordam os desafios enfrentados em relação à crise climática.

Formações

O EcoClima conta com 20 agentes climáticos, jovens de 15 a 29 anos, e quatro mobilizadores do conjunto da Maré. Ao longo do primeiro ano, os agentes participaram de formações sobre direitos socioambientais, mudanças climáticas, ecologia e saneamento. 

A educadora e coordenadora de formação, Andrea Barreto, explica o processo formativo dos jovens.

“A partir do processo de construção do conhecimento nas aulas os agentes tiveram oportunidade de realizar e participar de algumas ações. Visitamos o Composta’e, um negócio social que trabalha com compostagem; a área de Proteção Ambiental Catalão, onde houve possibilidade de conhecer diversidades de Mata Atlântica, animais que vivem naquela área e o mangue; e a estação de tratamento de resíduos da Comlurb, no Caju, onde os alunos tiveram a chance de conhecer um grande processo de reaproveitamento e reutilização de resíduos orgânicos”.

Multiplicar o debate

Para o mobilizador Felipe Bacelar, a realização dos processos formativos trouxe uma gama de aprendizados que os agentes podem replicar em outras favelas, refletindo sobre as mudanças climáticas que atingem diretamente e indiretamente a Maré.

“A importância do EcoClima no território é abrir espaços para diálogos sobre temas relacionados a mudanças climáticas, reutilização de reciclagem, de materiais resíduos orgânicos ou materiais que às vezes a gente acha que não tem um uso. O EcoClima quer trazer uma nova perspectiva para o território”, afirma.

Próximos passos

Para o futuro, a meta é transformar o conhecimento produzido em soluções concretas para os problemas ambientais da Maré, como acúmulo de resíduos, ineficiência do saneamento básico, calor intenso e a degradação do ecossistema local. Junto com os educadores da UFRJ, os agentes estão trabalhando em protótipos de quatro tecnologias ambientais: composteira, biodigestor, telhado verde e replantio de mangue.“Estamos comprometidos em desenvolver protótipos que atendam às necessidades específicas do nosso território, levando em consideração sua realidade única. Pretendemos reimaginar e adaptar tecnologias consagradas, como composteiras, biodigestores e telhados verdes, para atender às demandas e condições específicas de uma comunidade de favela. Nosso objetivo não é apenas resolver problemas ambientais locais, mas também fortalecer a resiliência da favela e promover práticas sustentáveis que possam ser replicadas em outras áreas semelhantes”, ressalta o coordenador Rian Queiroz.

‘Menos um dia que meu aluno aprende’ relata professora diante da 15ª operação na Maré 

Somente em maio, aconteceram quatro operações que causaram impactos na rotina dos moradores

O Conjunto de Favelas da Maré amanheceu, nesta segunda-feira (27), com a 15ª operação na Maré. Moradores da Nova Holanda, Parque Maré, Parque União e Parque Rubens Vaz relataram a presença de carros blindados e policiais a pé desde as primeiras horas do dia. Ao longo da manhã, a operação também se estendeu para o Morro do Timbau e Vila do Pinheiro.

“Os policiais estão nas ruas com os cachorros invadindo casas”, “muitos tiros e correria pelas ruas da Nova Holanda”, “mais um dia que não consigo sair de casa para trabalhar”, são alguns dos relatos dos moradores que sofrem as consequências de uma política de segurança pensada apenas a partir do braço armado do Estado.

Para além de um número em ordinal, a 15ª operação significa menos um dia de aprendizado para os alunos das escolas da Maré, como relata em meio às lágrimas a professora Roberta no vídeo publicado no X (antigo Twitter) no perfil Maré não Vive.

“Não. Não estou feliz em não trabalhar, não estou feliz porque está tendo operação e eu vou ficar em casa, não. Fico triste. É menos um dia que meu aluno aprende, é menos um dia que ele pode dormir tranquilo, é menos um dia que ele pode sorrir com os coleguinhas na escola. É menos um dia que eles vão chegar correr e me abraçar.”

“As nossas crianças da maré não tem paz. Eles não tem uma semana de paz e sossego. Como aprende desse jeito? hein?”, indaga a professora.

Segundo nota da PM, os policiais do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) com o Batalhão de Policiamento em Vias Expressas (BPVE) e o 22º BPM (Maré) atuam na região. No entanto, foi registrada também a presença de agentes do Batalhão de Ação com Cães (BAC).

O Eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça da Redes da Maré registrou três casos de violação de direitos na operação. Uma ameaça a uma moradora, cárcere privado seguido de tortura e uma invasão a domicílio e dano ao patrimônio. Publicamos vídeos nas redes sociais sobre o caso.

Impactos na rotina

Somente em maio, aconteceram quatro operações que causaram impactos na rotina dos moradores. Na educação, são ao todo 23 escolas fechadas, duas estaduais com um impacto direto de 900 alunos na parte da manhã, e 21 municipais. Nessa conta não entramos alunos que precisam sair da Maré para estudar. 

Na saúde, a Clínica da Família (CF) Jeremias Moraes da Silva que realiza, em média, 250 atendimentos por dia, suspendeu o funcionamento na manhã desta segunda-feira (27) devido à operação prezando pela segurança dos funcionários e usuários da unidade. 

Já as CF Diniz Batista dos Santos e CF Augusto Boal, apesar de continuarem atendendo na unidade, precisaram suspender as visitas domiciliares.

Ações sem resultados reais 

Antes do fechamento de cada matéria sobre operação realizada no Conjunto de Favelas da Maré, perguntamos à polícia responsável pela ação qual é o balanço final, qual o objetivo da operação e sobre a conclusão da ação. Dificilmente somos respondidos e, quando a resposta vem, não raro é como a de hoje “Sem saldo operacional”. Em alguns casos, há respostas indicando a apreensão de uma ou duas armas e quantidade irrisória de drogas. 

Em uma discussão no X (antigo Twitter), um comentário chamou atenção: “Eu era completamente a favor de operações em favelas, até que fui morar na VJ (Vila do João) um tempo e vi que essas operações não servem pra absolutamente nada. Não tem nenhum objetivo e só prejudica o trabalhador”.

Enquanto outro rebate: “Vocês estão reclamando da polícia que está tentando resolver o problema de vocês. Tem que reclamar dos bandidos”. 

A 15ª operação policial aconteceu um dia depois que a TV Record exibiu uma reportagem com uma manchete que usa a expressão “fortaleza do crime” para se referir à Maré, além de insinuar que a ADPF das favelas seria a responsável por um suposto aumento de criminalidade na Maré. Essa narrativa criminaliza a favela e, por consequência, as pessoas que vivem nessas regiões. 

A pergunta que fica é: No que melhora a vida do morador após uma operação? 

O Maré de Direitos, projeto do eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça, da Redes da Maré, acolhe situações de violações de direitos no WhatsApp (21) 99924-6462. O Ministério Público (MP) realiza um plantão especial para atender a população. O atendimento gratuito é feito no telefone (21) 2215-7003, que  também é WhatsApp, ou no e-mail [email protected].

Idosos da Maré mantêm a saúde com exercícios físicos

A prática de esportes contribui para a longevidade e bem-estar

Você já deve ter visto algum vídeo relacionado a exercícios físicos e bem estar nas redes sociais ou ouviu alguém prometendo começar a se exercitar na segunda-feira. Independente de ser um amante ou não da prática, é indiscutível que há unanimidade entre médicos e especialistas em saúde sobre a importância dos exercícios físicos para todos.

Um exemplo da importância das atividades físicas na vida é seu Antônio Alves, de 72 anos. Há 56 anos ele pratica esportes; começou com corrida em 1968, quando participou da Escola de Aprendiz em Vila Velha, no estado do Espírito Santo. De lá para cá, ele conta que já participou de 34 maratonas. Além disso, faz natação e yoga.

“Eu, na época, estava servindo e comecei a treinar corrida e fui tendo um bom desempenho. Aí, eu dei corda e fui seguindo!”, afirma. Seu Antônio mora na Maré há mais de 50 anos; só na Baixa do Sapateiro conta que vive há 30 anos. Ele diz que é conhecido pelos vizinhos também por correr e caminhar. Tanto sua esposa quanto os filhos também se exercitam. “Muita gente vê e se espelha, até mesmo pela idade também”, conta.

Musculação pela saúde

No Parque União (P.U) também tem vários idosos fitness. Uma delas é a dona Iraci dos Santos, de 75 anos, que mora no P.U desde 1966 e treina há três anos para cuidar da saúde. Durante oito anos, cuidou do seu marido, que estava doente, e por causa disso desenvolveu dores no ombro e problemas no nervo ciático causados por uma queda que sofreu. “Fui em vários ortopedistas, até que um amigo do meu filho disse que seria bom eu começar a malhar. Falei com o médico e ele concordou, mas disse que eu não poderia fazer sozinha. Então, comecei a treinar com o instrutor”, conta.

Dona Iraci, que malha trêz vezes por semana, é mãe de dois filhos e avó. Ela conta que os filhos a incentivam a treinar: “Se faz bem para mim, para eles também, né?” Apesar de ainda sentir dores e dificuldades para executar alguns movimentos por causa do ombro, Dona Iraci garante que os incômodos são mais moderados e ocorrem com menos frequência.

O profissional de educação física Isac Dantas, que a acompanha, destaca que um dos benefícios dos exercícios físicos na terceira idade é a recuperação da massa muscular magra, a qual protege a estrutura óssea. “Façam musculação e podem pegar peso, obviamente com um instrutor ao lado organizando seu treino. O músculo não é algo só estético, é saúde. […] A academia, eu costumo falar, é o plano de saúde mais barato que tem”, afirma.

Direito ao envelhecimento saudável

Envelhecer com qualidade de vida é um direito garantido pelo Estatuto da Pessoa Idosa. Fazem parte desse direito o acesso aos serviços de saúde e práticas esportivas. No Conjunto de Favelas da Maré, segundo a Secretaria Municipal de Saúde, as sete unidades de Atenção Primária contam com o Programa Academia Carioca, cinco delas com aparelhos instalados, e duas que ainda não têm os aparelhos oferecem outras atividades físicas.

Nesses espaços, “os professores de educação física trabalham junto com profissionais de saúde”, diz a nota. Os exercícios são adaptados para as necessidades do aluno e podem ser realizados com aparelhos ou não.

A população brasileira está mais velha

Segundo o Censo Maré (2019), os moradores do território com mais de 60 anos representam 7,4% do número total de habitantes, de aproximadamente 140 mil pessoas. Embora a população idosa mareense em porcentagem seja pequena, é comum ver o quanto são ativos nos espaços de lazer e esporte no território.

De modo geral, a população brasileira está envelhecendo, e chegar à terceira idade com qualidade de vida é o objetivo. O Censo demográfico de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que em 2022 o total de pessoas com 65 anos ou mais no país (22.169.101) chegou a 10,9% da população, com alta de 57,4% frente a 2010, quando esse contingente era de 14.081.477, ou 7,4% da população.

Para os jovens e outros idosos, seu Antônio e dona Iraci são unânimes em afirmar que é importante fazer exercícios físicos. Isac, que também é profissional de fisioterapia, diz ainda que a musculação é para todos: “Desde criança de dez anos a idoso de 100 anos pode fazer sem problema nenhum”, conclui.

Ativista e jornalista da Maré no G20

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Kaya Bee coloca o futuro climático da favela no debate global do G20

Do Conjunto de Favelas da Maré à conferência da 19ª reunião de cúpula do G20, a trajetória de Kaya Bee, moradora da Nova Holanda é um exemplo inspirador na luta por um futuro mais justo e sustentável. Aos 27 anos, mãe, ativista climática e estudante de jornalismo, ela carrega a força e a resiliência de quem enfrenta os desafios da vida na favela com a determinação de transformar a realidade para os mareenses.

O encontro acontecerá nos dias 18 e 19 de novembro, aqui no Rio de Janeiro e será a primeira vez que líderes das 20 maiores economias do mundo estarão em solo brasileiro. A conferência coloca em debate os principais desafios que a humanidade enfrenta hoje, como as mudanças climáticas, a desigualdade social, a instabilidade geopolítica e a pandemia da COVID-19. As decisões tomadas pelos líderes do G20 impactam significativamente a vida de bilhões de pessoas em todo o mundo.

Ativismo favelado no G20

A ativista climática atua junto aos “Jovens Negociadores pelo Clima”, na área de comunicação, fazendo a curadoria das informações sobre os grupos de engajamentos do G20. O projeto tem incentivo da Secretaria de Meio Ambiente do Rio de Janeiro e foi idealizado pela Tainá de Paula. Além disso, Kaya produz matérias nos territórios da Maré sobre mudanças climáticas e transição energética justa, com a participação da DIJO – Mídia Alternativa da Maré.

Em sua luta por um futuro sustentável para o planeta, ela reforça que a busca por justiça ambiental está intimamente ligada à luta por justiça social. Sua participação no G20 é um marco importante, pois leva para o debate global a perspectiva das favelas e territórios marginalizados, que são os mais impactados pelas mudanças climáticas. Ela conta a importância de ampliar a discussão sobre justiça ambiental com a participação das periferias: “É fundamental democratizar os diálogos para os territórios de favela e fazer a comunidade entender que também são pautas desses assuntos”, diz.

Kaya aponta a grande provocação da conferência: “O maior desafio do G20 é fazer as pessoas entenderem que eles não são apenas stands de publicidade, mas que são reuniões diplomáticas que tratam sobre pautas que impactam na nossa sobrevivência como comunidade, ainda mais se tratando de questões de meio ambiente e clima”, conta.

A jornada de uma sonhadora

Na Maré, Kaya sempre teve o sonho de ingressar na universidade. Mas o caminho não foi fácil e teve que enfrentar, infelizmente, uma decisão muito comum: desistir do sonho ou persistir na busca por um futuro melhor. “Eu vim pra Maré em busca do sonho de me tornar universitária e não tem sido nada fácil trilhar esse desafio. Vencer através da educação em um território de favela vai além da persistência, pois os atravessamentos sociais são infinitos, seja a falta de segurança, a falta de acesso a políticas públicas e assistência social. Assim como a maioria dos jovens da minha idade, precisei viver entre a cruz de resistir em um sonho de vencer na vida através da educação ou na necessidade de ter um emprego insatisfatório para sobreviver e criar os filhos”, conta.

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Mas a jornalista deixa claro que ser estudante na Maré é uma experiência única e transformadora, principalmente quando alinhada às causas sociais e à incidência de políticas públicas e foi neste território de resistência e criatividade que ela redescobriu a paixão pelos estudos: “Estudar nesse território é dinâmico, interativo, diferente de outras favelas, aqui podemos exercer minimamente um papel social que fora da favela nos é negado, como a oportunidade de ter uma capacitação profissional”.

Ela relata como a representatividade é fundamental para incentivar os mareenses a seguirem seus sonhos: “Acredito que as pessoas se influenciam com o sucesso do outro, vejo que todos os meus amigos nesse território hoje são professores, articuladores e desempenham um papel importante. Minha vivência não é muito diferente das mães pretas, minhas vizinhas, acho que a chave está naquilo que você está disposto a fazer para conseguir seus objetivos e eu uso meu filho e meus pais pra me segurar nessa motivação.”

O papel da mobilização comunitária na busca por justiça e paz em 30 anos de Maré

‘Marcha Basta de Violência’ que completa 7 anos reuniu mais de 5 mil pessoas. O evento é um marco significativo na história da comunidade

Edição #160 – Jornal Impresso do Maré de Notícias

Henrique Silva

O direito à segurança pública para a população das favelas sempre foi um tema muito discutido entre especialistas, autoridades políticas e acadêmicas, visando compreender a relação direta desse direito a partir de experiências desastrosas dentro da política pública para as favelas. Muitas vezes, a resposta é resumida às operações policiais, o que gera uma falta de compreensão da totalidade das questões de segurança pública e sua dimensão estrutural.

Para discutir a garantia do direito à segurança pública como um direito humano, é necessário questionar a longa história de hierarquização da humanidade, que, por sua vez, levou à normalização de processos desumanizantes voltados para grupos específicos. Para os habitantes de favelas, na maioria negros e pobres, essa desumanização é algo histórico, remontando ao período colonial.

O papel da mídia

Uma das principais ferramentas para o fortalecimento dos estereótipos dos moradores de favelas como pessoas indignas e violentas foi disseminado pela Grande Mídia. O jornal impresso por muitos anos foi um dos principais veículos de comunicação e desempenhou esse papel de reforçar estereótipos dos moradores de favelas. 

Para exemplificar, em 1982, uma matéria do Jornal do Brasil teve grande repercussão na Maré, e provocou um desejo de resposta por parte dos moradores. A jornalista Lilian Newlands, após passar um mês na favela Nova Holanda, publicou uma matéria intitulada Na Nova Holanda, a malandragem é continuar vivo. Ao longo da matéria de três páginas, o foco principal foi reportar a dinâmica de violência como característica da vida dos moradores da favela.

A reportagem não foi bem recebida por um grupo de moradores, que fizeram uma mobilização e produziram uma carta em resposta, destacando os efeitos desses estereótipos propagados na mídia. A carta foi enviada para redação do Jornal do Brasil, que a publicou na íntegra. Um dos trechos dizia:

“Será que a repórter sabe que aqui em Nova Holanda moram pessoas que trabalham sol a sol para conseguir seu sustento e de sua família? Será que ela sabe que existem jovens que trabalham, estudam e, no final de semana, ainda tentam fazer algo pela comunidade e que foram mais marginalizados pela reportagem? Podemos citar grupos de pessoas que procuram o bem da comunidade como: a Escola Nova Holanda, a Igreja, a Golden Cross, Cebes (Centro Brasileiro de Estudos de Saúde), a Creche Casulo.”

Reportagens como essa continuam a existir e a produzir visões estereotipadas sobre as favelas. Jornais, rádios, internet e programas na televisão exibidos no horário do almoço, trazem pautas sobre segurança pública que reforçam os espaços de favelas como um local onde as pessoas são violentas, imorais e criminosas.

Linha do tempo

Durante os governos de Leonel Brizola (1983-1987 e 1991-1994) foi implementada uma proposta de policiamento baseado na aproximação com a comunidade, que abriu novos espaços de diálogos entre as lideranças de favelas e os comandos das polícias. À época, a política foi considerada como um avanço no campo progressista sobre segurança pública.

Com o fim do governo Brizola, o modelo de segurança pública volta a ser destaque nas eleições para Governo do Estado e, ao longo dos anos 1990 e 2000, outra lógica de segurança pública se instaura. 

O governo Marcello Alencar trouxe para o comando da Secretaria de Segurança Pública o General do Exército Nilton Cerqueira, integrante da ala mais repressiva do período da ditadura militar.

Em sequência, os governos de Anthony e Rosinha Garotinho seguiram a mesma lógica, contando com um novo reforço no poderio bélico: o Caveirão, instituído como principal bandeira de governo. Este aparato nas operações policiais fez com que o número de mortos e feridos aumentasse durante esses governos.

UPP e Forças Armadas

Em 2007, o Rio de Janeiro recebeu a notícia que iria sediar a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. A política de Segurança Pública foi a que mais recebeu investimento para propagar a sensação de segurança e garantir a realização dos megaeventos.

O governo do Estado do Rio lançou em 2008 o programa de Unidade Polícia Pacificadora (UPP), com objetivo restabelecer o domínio estatal nas favelas controladas pelos grupos armados. Na primeira fase da Pacificação, a polícia entrava nas favelas que seriam “pacificadas”, realizando operações e grandes incursões com uso de um potente material bélico, como tanques de guerra militares e helicópteros.

O conjunto de favelas da Maré, não chegou a receber uma UPP, no entanto, entre abril de 2014 a julho de 2015, a Maré foi ocupada pela – força de pacificação, com a incursão 2.500 soldados das Forças Armadas do Brasil, com a incumbência de atuar de maneira permanente nas ruas das favelas. As tropas realizaram patrulhas 24h por dia, instalaram postos de controle, com o intuito de fazer revistas corporais aos moradores. O resultado dessa política de segurança pública foram centenas de mortes nas favelas da Maré e da cidade do Rio de Janeiro.

Mobilização dos moradores 

É nesse contexto que Redes da Maré começa o trabalho de mobilização monitorando atividades, levantando denúncias de abuso de poder que se estenderam para as operações policiais. O resultado desse trabalho culminou na publicação do Boletim de Segurança Pública da Maré de 2016.

Desde o primeiro boletim até os dados mais recentes de 2023, foram registradas 138 mortes causadas pela ação policial nas favelas da Maré – sendo mais de 80% de pessoas negras. Uma dessas operações ocorridas no ano de 2016, que já durava mais de 12 horas no território, foi interrompida por ordem judicial após representantes das Associações de Moradores locais, ONGs e a defensoria pública do estado procurarem o plantão judiciário. 

A decisão inédita da Justiça visava proteger os 140 mil moradores da região, convocando os comandantes policiais para esclarecimentos. Esse episódio evidenciou a importância da mobilização dos moradores e da busca por justiça na defesa dos direitos das populações de favelas e periferias.

O resultado dessa articulação foi a obtenção da Ação Civil Pública da Maré, em 2017, o que reforçou a necessidade do engajamento da sociedade civil na garantia do direito à segurança pública dessas comunidades.

Marcha Basta de Violência 

Os primeiros meses de 2017 foram muito difíceis no Conjunto de Favelas da Maré, com 14 operações em três meses, 16 feridos e 12 mortes. Como resposta a essa violência foi criado pelas instituições e moradores do território o Fórum Basta de violência, outra Maré é possível!, que se empenhou em organizar uma marcha contra violência. 

A marcha completará 7 anos no dia 24 de maio deste ano, que reuniu mais de 5 mil pessoas, de diferentes bairros da cidade. O evento é um marco significativo na história da comunidade que reivindicou paz num ato público e político de mobilização realizado nas ruas da Maré.

Retrocessos

Em junho de 2019, a Ação Civil Pública (ACP) que tinha sido conquistada pelos moradores em 2017, foi suspensa a pedido do Estado pelo poder judiciário, sob a alegação de que o Estado deveria continuar a realizar incursões policiais sob seus próprios parâmetros, o que causou uma reação imediata da população da Maré. 

O Fórum Basta de violência se reuniu novamente para iniciar uma série de mobilizações, a fim de sensibilizar os juízes no sentido de rever a suspensão da ACP. Uma das propostas foi para que as crianças da Maré escrevessem cartas aos juízes sobre suas vivências durante os momentos de confrontos armados.

Neste processo de mobilização comunitária, foram escritas  mais de 1.500 cartas,  enviadas em sequência à presidência do Tribunal de Justiça. Ao mesmo tempo, a Defensoria Pública do Estado entrou com um recurso para o restabelecimento da ACP.

Uma das principais formas de resistir às violações de direitos causadas pela ausência de segurança pública e as operações policiais é a subjetividade e agenciamento crítico, explicitadas em cartas dos moradores da favela. Como resposta à reportagem do Jornal do Brasil e às 1.500 cartas escritas por crianças da Maré, mostramos a força da mobilização e incidência política comunitária como estratégias que emergem da necessidade de garantir e reivindicar a segurança pública como um direito em territórios favelados. 

Vale a pena ler de novo: 3 matérias que destacam a diversidade cultural na Maré

No dia 21 de maio, celebramos o Dia Mundial da Diversidade Cultural, uma data que nos convida a refletir e celebrar a riqueza cultural em diferentes cantos do mundo. Em homenagem a esta data, o Maré de Notícias resgata três matérias que destacam a essência da diversidade cultural nas favelas da Maré.

A primeira matéria, “Parque União é reconhecido como Polo Gastronômico e Cultural”, aborda o projeto de lei que regulamentou esse território, que tem atraído diversos públicos para a praça do Parque União com o objetivo de fortalecer a gastronomia e a economia local.

Em “É tempo de celebrar a herança cultural do folclore na Maré”, abordamos a importância de valorizar a cultura local também na educação. Unidades escolares no Salsa e Merengue e na Vila do Pinheiro promoveram eventos que contam com a participação ativa de alunos e seus responsáveis.

Por último, a matéria “Maré celebra cultura com diversidade e resistência” mostra o quanto as favelas da Maré são diversas e atuam em diferentes frentes da cultura, promovendo diversidade e resistência.

Essas matérias destacam como as diferenças culturais mostram a força vibrante e resiliente nas favelas da Maré, impulsionando o desenvolvimento econômico, a educação e a união comunitária. Celebramos, assim, o Dia Mundial da Diversidade Cultural reconhecendo e valorizando as múltiplas vozes e tradições que compõem a nossa Maré.